“Magnífico Reitor da Universidade do Porto, prof. doutor António de Sousa Pereira
Exma. Sra. Diretora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, prof. doutora Paula Pinto Costa
Caro Doutor Artur Santos Silva
Caro Carlos Magno
Exmo. Sr. Presidente e vereadores da Câmara Municipal de Paços de Ferreira
Distintos membros da Equipa Reitoral da Universidade do Porto
Exmos. Senhores Diretores de Faculdade
Exmos. membros do Conselho Geral e restantes órgãos de gestão
Caros professores e investigadores da Universidade do Porto
Prezados membros da comunidade académica
Distintos convidados
Caros amigos
Minhas senhoras e meus senhores
Agradeço, penhoradamente, à Universidade do Porto a grande honra que me dá ao distinguir-me com este doutoramento “honoris causa”, e a tão generosa fundamentação para o fazer. Honra tanto maior por ser esta uma grande universidade, de imenso prestígio nacional e internacional, que teve e tem nos seus quadros figuras absolutamente marcantes em vários domínios do saber, das ciências e das humanidades. Agradeço em particular à Faculdade de Letras, que fez a proposta, à sua diretora, profª Paula Pinto Costa, e aos profs. Mário Jorge Barroca e José Meirinho, que a apresentaram. Bem assim agradeço a Carlos Magno o elogio que acaba de proferir; e a Artur Santos Silva, fraterno amigo e a pessoa com mais atenção aos outros e constante disponibilidade para os apoiar que conheço, ser meu padrinho.
Deixo para o fim, para o destacar, e para sublinhar o facto de este ser um dos últimos atos a que nessa qualidade preside, o sincero agradecimento ao magnífico reitor, prof. António Sousa Pereira, a que esta universidade tanto deve – aproveitando ainda para desejar as maiores felicidades no exercício do cargo ao próximo magnífico reitor, prof. Pedro Nuno Teixeira.
A Universidade do Porto só não foi a minha universidade por não ter então o curso Direito. Se o tivesse, seria. Porque o Porto foi a minha primeira cidade. Nortenho de corpo inteiro, Freamunde a minha terra onde nasci, Póvoa de Varzim a minha terra onde não nasci, o Porto era a grande metrópole aos meus olhos de menino e adolescente. No Porto andei pela primeira vez de elétrico e de elevador. Vir ao Porto, ir ao Palácio de Cristal, ver o Cortejo dos Fenianos ou festejar o S. João, era um acontecimento.
Quanto à sua Universidade representava uma espécie de templo distante, que com o correr dos anos ficou cada vez mais próximo.
E assim recordo os muitos que aqui ensinaram e aprenderam de quem fui amigo, a título de exemplo destacando três profs. da Faculdade de Letras da minha particular estima: Óscar Lopes, João Francisco Marques (que foram seus diretores) e Margarida Losa.
Estudei pela História da Literatura de Óscar Lopes e António José Saraiva, li as suas muitas obras, admirei a seriedade e vasto saber do ensaísta e crítico, a coragem e intervenção do cidadão e homem de cultura. A referida História chegou a ser o livro português mais vendido, e fiz o que nunca fora feito: uma entrevista simultânea aos seus dois autores. Deu que falar: publicada no JL em 1990, a Gradiva editou-a num voluminho em 2018.
A João Francisco Marques, poveiro e diácono, conheci-o aos 10 anos. Historiador, renomado especialista em parenética e em Padre António Vieira, principal responsável por esta área na sua Obra Completa em 30 volumes, na véspera da abertura das Correntes d’Escritas de 2015 fizemos uma sessão para apresentar essa Obra e em simultâneo o homenagear, também pelo muito que fez pela Póvoa. João Marques ficou feliz – e morreu, de súbito, poucos dias depois.
Margarida Losa pertenceu comigo à direção do Círculo de Estudos Literários, que entre fazer muitas outras coisas enviei na Associação Académica de Coimbra. Tinha uma forma de ser e um talento singulares, inclusive como poeta. Desaparecida com apenas 56 anos, na sua Fac. de Letras permanece, no Instituto de Literatura Comparada a que justamente deram o seu nome.
Em princípio nenhuma instituição é mais “representativa” de uma cidade que a “sua” universidade”, como sua casa maior de saber, conhecimento e valores. Assim, volto a falar do Porto, da minha profunda ligação a esta cidade, terra de luta pela independência nacional e pela liberdade através dos séculos. O Porto…
– o Porto onde fiz as minhas mais esforçadas correrias, entre a estação da Trindade, terminal do comboio da Póvoa, e o liceu Alexandre Herculano, que frequentei no 6º ano – e no qual meu pai, em início de carreira, foi professor;
– o Porto cujo Cine-Clube deu um apoio fundamental à secção de cinema que fundei no Desportivo da Póvoa – e se com 17 anos cheguei a ‘apresentar’ filmes para maiores de 18, foi graças apenas ao apoio do seu presidente, o pioneiro Henrique Alves Costa;
– o Porto onde estabeleci contactos para a participação de representantes da sua academia no I Encontro Nacional de Estudantes, em Coimbra, 1961, e no que se lhe seguiu;
– o Porto, de onde parti para a primeira viagem ao estrangeiro, com amigos das Belas-Artes, no velho Renault 4-L do Sérgio Fernandez, que há um mês e meio nos deixou; sendo um dos outros companheiros o José Rodrigues, de que viria a ser grande amigo, e ele meu ilustrador, eu seu advogado. Uma viagem rara, em que no regresso até trouxemos uma bebé, filha de um casal de exilados políticos…;
– o Porto de tantos poetas e escritores, aqui nascidos ou aqui radicados, vários de primeira grandeza, que para mim foram importantes. Só posso aqui e agora evocá-los dizendo os nomes de alguns deles… Assim evoco Sophia, evoco Agustina, evoco Eugénio; evoco José Gomes Ferreira e Egito Gonçalves; evoco Veiga Leitão e João Apolinário; evoco Luísa Dacosta e António Reis; evoco Vasco Graça Moura, evoco Manuel António Pina.
E outros, de áreas diferentes, desejaria evocar: faço-o, por todos, lembrando Júlio Resende, que ilustrou um livro meu, e o Manoel de Oliveira, que conheci, eu muito novinho, no grupo de José Régio, no Diana-Bar da Póvoa, e entrevistei a última vez nos seus fez cem anos – ambos tendo escrito, a minha solicitação, uma autobiografia.
Enfim, o Porto, tantas coisas ao correr do tempo, de falar em comícios eleitorais na Praça da Liberdade, onde isso vai, às sessões sobre o Jornal de Letras na Árvore, e outras iniciativas do excecional editor, e não só, José da Cruz Santos. A cuja insistência devo ter voltado a editar a minha poesia, vários livros que por sua vontade seriam mais.
O que não aconteceu por considerar mais relevante tratar de outras coisas, sobretudo do JL, jornal de letras, artes e ideias. E só a sua suspensão, há 10 meses, permitiu que depois disso tivesse editado só dois livros, o mais recente, de poemas, Os sete sentidos e outros lugares.
Não sou especialista de nada, a generosa distinção que esta Universidade me concedeu, só pode ter por base o que ao longo de uma já longa vida fui fazendo. Sempre com bons objetivos, decerto nem sempre com bons resultados…
O que fui fazendo como jovem empenhado em causas a que continuei sempre fiel;
O que fui fazendo como jornalista, advogado, dinamizador cultural, poeta, cidadão. Ou, as mais das vezes, tudo isso misturado – como nas inúmeras sessões de poesia que realizei, a partir de certa altura em geral “acompanhado”, como ele dizia, pelo inigualável Carlos Paredes.
O que fui fazendo, visando lutar pela liberdade, dignidade, justiça; pelos Direitos Humanos; lutar por uma informação de qualidade, essencial para uma autêntica democracia; pela literatura e a arte, fatores essenciais da valorização e realização das pessoas; lutar pela língua portuguesa como maior riqueza da nossa pátria e maior património na nossa história, e pela relação privilegiada e bem articulada entre todos os povos e países a que hoje também pertence.
Com a visão romântica de serem as duas atividades em que melhor se podiam defender a verdade e a justiça, fui profissionalmente o que sempre quis ser: jornalista e advogado. E, não profissionalmente, aconteceu o mesmo: trabalhei, tive funções consultivas e de direção, em muitas instituições ou associações com os objetivos que eu também prosseguia. Nunca quis, porém, qualquer cargo público, e em tudo que era do Estado nunca aceitei remuneração ou senhas de presença.
De comissões destaco, pelo que simbolizou, e seu fundamental desígnio, a Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, nomeada por Mário Soares no seu primeiro governo, constituída por José Magalhães Godinho, Barradas de Carvalho, Teófilo Carvalho dos Santos, Raul Rego, Piteira Santos e por mim – desde há 24 anos, 24!, o único sobrevivente. Todos, com minha exceção, figuras destacadas da resistência à ditadura, a cuja memória aqui presto homenagem. Apesar de não ter podido fazer tudo que desejava a Comissão ainda publicou 25 volumes, seis dos quais com fichas de presos políticos – o que ganha atualidade quando hoje se chega aos extremos da mentira e do despudor de até sobre presos políticos se fazerem comparações entre o antes e o pós 25 de Abril.
Presos políticos “julgados” no famigerado Plenário por juízes que “serviam” à PIDE e no qual ser advogado era uma forma de resistência. “E vós, senhores juízes (escrevi então) que sem pestanejar/ obedeceis/ a leis iníquas/ deste injusto e sujo tempo/ que direis no dia do vosso julgamento?”. Nunca foram julgados, como nunca tiveram qualquer sanção os “censores”, sendo a Censura, de par com a Pide, o principal instrumento repressivo/protetor do regime tirânico. Conheci-a, sofri-a e combati-a. Poucos imaginam o que era, pensando que só impedia a liberdade de expressão, as críticas ao governo ou à administração pública – quando, além disso, o seu fim fundamental era ocultar a realidade do país, cortando inclusive simples notícias factuais que podiam contribuir para ela ser conhecida.
A revolução de 1974 de imediato acabou com a Censura, que em 1971 me lavara a deixar o jornalismo de banca. Voltei, estive na direção do Diário de Notícias e da RTP, foram tempos inesquecíveis, apaixonantes, apesar de naturalmente difíceis e conturbados. E foi possível então concretizar um velho sonho de jornalistas: ter um jornal seu e só deles dependente. Assim fundámos, em 1975, a Projornal e O Jornal – para fazer um jornalismo livre, sério e independente – que foi um exemplo e um êxito. Apoiante do MFA – mas crítico, não seguidista -, e quando no MFA houve cisões próximo do “grupo dos Nove”, O Jornal teve notória intervenção e influência no período revolucionário e de consolidação da democracia – e no início da década de 80 ultrapassou o Expresso, tornou-se o jornal de maior expansão do país. Entretanto, sendo eu seu diretor e diretor editorial do grupo, lançamos outros títulos, uma editora que publicou grandes escritores, com uma cooperativa de radialistas a TSF, Rádio Jornal, etc. etc.
Ou seja, como costumávamos dizer, um “projeto jornalístico, cívico e cultural”. Com diversificada ação e iniciativas pioneiras com as duas séries de Conferências Democráticas de O Jornal, em que participaram os líderes dos principais partidos e o Presidente da República, em sessões que superlotaram o Cinema Roma. O que correspondia ao que sempre foi a minha Visão (título da revista que viria a substituir O Jornal, e que continua a resistir…), a minha visão dos media e do jornalismo: não um quarto poder, mas essencialmente uma responsabilidade social. Que lhe cabe cumprir, respeitando escrupulosamente as regras éticas e deontológicas da profissão.
E foi aí, na Projornal, que criei o seu mais perene título: o JL, jornal de letras, artes e ideias. A previsão de muitos era que duraria poucos meses, chegou ao 45º ano de publicação: quinzenário, semanário, de novo quinzenário, 1429 edições. Sem uma falha, de março de 1981 até julho de 2025, quando teve a publicação suspensa pela insolvência da empresa proprietária. Situação que se mantém, perante a total indiferença do Estado face ao destino de um jornal que inúmeras figuras de todos países de língua portuguesa, incluindo oito Presidentes da República, consideraram “importantíssimo”, “imprescindível”, “ponte entre os dois lados do Atlântico”, “traço de união entre todos que falam português”. Ou, “a autobiografia da democracia portuguesa”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa.
Sem ponta de vaidade, embora com orgulho, tenho de reconhecer que o JL constitui um acervo único da cultura portuguesa, da língua portuguesa e da lusofonia. Nas suas dezenas de milhares de páginas estão todos os grandes vultos, e não só os grandes, da literatura, das artes, do pensamento, do nosso país e em geral do universo da nossa língua. Simbolizando os que tanto contribuíram para fazer do JL o que foi, e desejo possa continuar a ser, evoco o meu querido amigo Eduardo Lourenço, nosso colaborador permanente desde o nº 1 e até à sua morte.
Termino recordando que o que fui fazendo incluiu a defesa, teorização e tentativa de concretização de uma força cívica/política para dar aos cidadãos um Direito que devia estar consignado na Declaração Universal dos Direitos Humanos: o Direito à Esperança. Para isso aprofundando/democratizando a democracia, mudando a forma de fazer política, privilegiando a ética e a competência, a decência, a tolerância e respeito pelos outros – tudo não para conquista do poder, no sentido ‘tradicional’, mas para transformar a sociedade.
Transformar a sociedade e fazer um país, um mundo, melhor. Nunca o Direito à Esperança foi tão necessário como hoje, quando vivemos em tempo de Trumps, de completo desrespeito pelo Direito Internacional e pelos Direitos Humanos, de guerras, massacres, genocídio, miséria material e moral, violência, prepotência, desigualdade e injustiças de toda a ordem.
Face a esta terrível realidade, não se pode baixar os braços e desistir. Éum combate desigual, mas que tem de ser travado. Para o que, mesmo sendo difícil e doloroso, se impõe, repito, manter viva a esperança, a capacidade de sonhar e lutar. Porque, e permitam finalize com versos meus:
‘Nunca é tarde para não ter medo/ Nunca é tarde para a pedra na fisga,/ o beijo na boca, a noite na praia./ Nunca é tarde para a viagem,/ e que seja longa,/ para a aventura e que seja louca.// Nunca é tarde para soltar o soluço,/ recusar o jugo, sacudir a canga./ Nunca é tarde para o grito do Ipiranga.// Nunca é tarde para não ter medo/ Nunca é tarde para aprender o vento,/ curtir os versos, amar as rosas.// Nunca é tarde para ser cedo'”