Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical confirma-nos uma coisa muito simples e pouco lisonjeira: em Portugal, basta pôr luzes, música, um ex-primeiro-ministro sem nome mas com demasiadas semelhanças reconhecíveis, uma ou várias piadas com pizzas — patrocinador “oblige” —, uma rima com “recurso” e o País inteiro entra logo em modo arraial judicial. Fui assistir ao espetáculo no Teatro Tivoli, que é grande, e aquilo estava cheio. Mas cheio a sério. Não cheio de lugares ocupados por assessores culturais, convidados da praxe ou borlistas do convite. Cheio de público, de gente que paga bilhete — entre 20 e 37,50 euros — e que queria rir-se da sua própria desgraça institucional, como quem vai à missa, mas com mais lantejoulas, mais colorido e menos transcendência.
E convém dizer isto sem snobismos, porque o snobismo é uma doença social portuguesa de uma certa elite nacional, ainda mais irritante do que o populismo teatral: o sucesso do espetáculo não é um acidente. É um sintoma. Diria mais: é um sinal dos tempos. Os teatros estão cheios, já o disse noutra crónica. Mas também estão cheios, sobretudo, para certas coisas. E esta peça, escrita por Henrique Dias, o mesmo homem que percebeu, em Pôr do Sol — a série de televisão e o filme — e em outros artefactos nacionais, como a longa-metragem Curral de Moinas — Os Banqueiros do Povo, um dos maiores sucessos de bilheteira do cinema português, com mais de 300 mil espectadores, entrando no top 5 dos filmes nacionais mais vistos desde 2004 e o filme português mais visto em 2022 — que Portugal funciona melhor quando se assume como paródia de si próprio e percebe uma verdade cruel: o País já não digere o escândalo pela via da seriedade. Precisa de o mastigar em forma de refrão, de coreografia, de farsa, de trocadilho e de escárnio.
A peça apresenta-se oficialmente como uma “crónica de costumes” inspirada em factos públicos, com um antigo primeiro-ministro a atravessar as Beiras, Lisboa, Paris, amizades muito amigas, licenciaturas ao domingo e cabalas várias, tudo em 75 minutos sem intervalo. Está, como já disse, em cena no Teatro Tivoli BBVA e segue depois para o Coliseu Porto Ageas.
Uma máquina oleada, um material desigual
Ora, o problema — ou o mérito, dependendo do grau de exigência intelectual e da tolerância ao disparate — é que isto funciona, mesmo sendo feito à base de diálogos inspirados em memes já bastante conhecidos sobre o ex-primeiro-ministro. Manuel Marques — que há pouco tempo também andou às voltas com a justiça, porque, convenhamos, quem não tem telhados de vidro? — imita bem o boneco. Aliás, ao longo da sua carreira tem imitado muito bem vários bonecos, diga-se, com bastante mérito. Tem o timbre, o esgar, o automatismo gestual, aquela forma de dizer coisas absurdas com a solenidade de quem julga estar a pronunciar um tratado de filosofia política em Vilar de Maçada ou Freixo de Espada à Cinta. E isso, por si só, já garante meia plateia.
A outra metade vem pela maquinaria: cenários que entram e saem como se o Parque Mayer tivesse tomado esteroides e arranjado financiamento, músicos em palco, trocas rápidas, uma energia de troupe afinada, aquele profissionalismo de quem sabe que o espetáculo tem de parecer espontâneo mesmo quando cada passo foi ensaiado até ao desespero. A produção envolveu dezenas de profissionais e um desenho assumidamente farsesco, com música original de Artur Guimarães e um cenário barroco de Marta Carreiras, visível, quase de teatro dentro do teatro.
Mas não nos enganemos: uma máquina oleada não é automaticamente uma grande obra. Também há elevadores muito eficazes em prédios horríveis. E Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical é, muitas vezes, precisamente isso: um elevador cénico muito bem afinado — a cena do cofre da mãe é um dos momentos cénicos mais inspirados e admiráveis do espetáculo — para um material dramaticamente pobre, politicamente fácil e humoristicamente desigual. O espetáculo quer ser sátira política, crónica de costumes, comentário social e farsa judicial, mas é, como já disse, uma colagem de memes já batidos e rebatidos sobre o engenheiro que só sabe que nada sabe. Acaba, quase sempre, por ser o primo musical de uma conversa de café ou dos eternos desabafos de alguns taxistas com os passageiros durante uma viagem, particularmente bem produzida.
Há ali qualquer coisa de genuinamente popular, no sentido mais ambíguo do termo: chega às pessoas, lê bem o ar do tempo, sabe o que o público quer ouvir e entrega-o sem grandes escrúpulos, aliás até com uma forte carga de oportunismo e populismo, que indiretamente está sempre a dizer que os políticos — e não apenas o ex-governante — querem ser primeiros-ministros ou ministros porque querem muito mais do que uma casa em Paris. Isto é uma qualidade de comunicação. Mas também é uma forma de oportunismo e de populismo. E as duas coisas não se excluem; em Portugal, aliás, costumam andar abraçadas.
A piada fácil e o ressentimento geral
O termo “alegadamente”, que no país real se tornou a almofada semântica de metade do comentário televisivo e mediático, aqui vira piada recorrente, bengala cómica e quase estratégia ou filosofia de vida. Nada mal. O problema é que a peça usa o processo judicial, a lentidão da justiça, os recursos, as prescrições, os advogados, o circo mediático e a fome de poder como matéria-prima para uma galhofa que, em vez de afiar o raciocínio, muitas vezes se limita a piscar o olho ao ressentimento geral e ao ódio contra o personagem real, que ainda não transitou em julgado e, por isso, para já, ainda não foi sentenciado como culpado. Não se esqueçam disso!
É o velho truque populista: não é preciso compreender as instituições nem as pessoas, basta ridicularizá-las com ritmo, mesmo antes de chegarem à barra do tribunal. E o público, cansado de anos de impunidade, de processos intermináveis, de tecnicalidades, de prescrições, de recursos, de advogados que desistem do processo e de novos advogados que têm apenas 15 dias para consultar resmas e resmas de folhas — que mais parecem escritas por Kafka depois de um estágio em Coimbra —, agradece a simplificação. Ri-se, e com razão. Só que, às vezes, ri-se de menos do alvo certo e demais da ideia genérica de que “os políticos são todos iguais” e de que “os poderosos são todos corruptos e, graças aos recursos, conseguem manipular a justiça”. São frases cómodas, preguiçosas e perigosamente eficazes.
É aqui que a coisa se complica e, ao mesmo tempo, revela o seu verdadeiro retrato nacional. O espetáculo goza com um ex-primeiro-ministro, sim. Mas sobretudo goza com um país inteiro que já desistiu de distinguir justiça de espetáculo, responsabilidade de entretenimento, investigação de novela e crítica política de uma boa imitação com foco de luz. É, nesse sentido, um produto perfeitamente contemporâneo. Há muito que a vida pública portuguesa se transformou numa mistura de conferência de imprensa, fuga ao segredo de justiça, sketch, fuga para Paris, indignação televisionada e memória seletiva ou narrativa viciada. O musical apenas organiza isso em canções. Quase se pode dizer que não inventa nada: faz curadoria do ridículo.
Farsa, onirismo e mau gosto
Henrique Dias percebe isto muito bem. Vem de um universo criativo em que o exagero não é um acidente, é um método. E a peça assume, desde o início, que não quer ser um documentário, nem um tribunal alternativo, nem sequer uma reconstituição rigorosa. Quer farsa. Quer excesso. Quer disparate. Quer um país que reconheça o material e se ria antes de perguntar se devia rir. Nesse aspeto, cumpre o programa. A encenação de Rui Melo também ajuda a empurrar tudo para esse território onírico-popular, onde cada quadro parece, ao mesmo tempo, um número de revista, um delírio barroco e uma piada esticada até ao limite da elasticidade. A própria equipa assumiu que procurou afastar-se do naturalismo e construir um objeto mais próximo da farsa e do “teatro dentro do teatro”.
O problema é que a farsa, para ser grande, precisa de precisão moral e não apenas de sincronização técnica. Precisa de crueldade justa. Precisa de linguagem afiada, não apenas rasteira. E aqui o espetáculo oscila muito. Há momentos em que acerta, porque apanha o delírio da nossa portugalidade com uma eficácia quase indecente. E há outros em que cai no mau gosto mais preguiçoso, na graçola fácil, na ordinarice de superfície, naquela ilusão muito portuguesa de que dizer palavrões, baixar o nível ou pôr uma personagem a cantar uma alarvidade é automaticamente transgressor. Não é. Às vezes é só barulhento.
E entre ser popular e ser populista vai, muitas vezes, apenas a distância entre uma boa observação e uma piada de tasca com orçamento de 600 mil euros. Esse valor tornou-se, por si só, mais uma camada de discussão pública sobre a escala da produção.
O País transforma a vergonha em entretenimento
Dito isto, convém não cair no moralismo inverso. A peça não é desprezível por ser popular, nem indigna por fazer rir de matéria judicial. A justiça portuguesa fez muito mais pela degradação do seu próprio prestígio do que qualquer refrão satírico. Se um musical destes existe, prospera e enche salas, não é só por culpa da UAU, do marketing ou do génio nacional para a paródia. É porque, durante mais de uma década, se construiu, em torno deste caso e de outros casos judiciais, a ideia devastadora de que o sistema é incapaz de produzir um desfecho proporcional à gravidade do que investiga. Quando a justiça se eterniza, o cabaré entra em cena. Quando o processo se arrasta, entra a coreografia. Quando o cidadão perde a fé, compra bilhete. E isto, infelizmente, faz todo o sentido.
Há ainda outro detalhe saborosamente português: a peça parece atacar o poder, mas também o absolve simbolicamente ao transformá-lo em folclore. O antigo governante vira personagem, caricatura, arquétipo, meme cantável. Sai da esfera da responsabilidade para entrar na do entretenimento. E isso, sendo eficaz, também é uma forma de limpeza. O corrupto alegado, o arguido mediático, o homem das cabalas e das amizades improváveis deixa de ser um problema político para passar a ser um boneco nacional. Rimo-nos dele, logo dominamo-lo. Ou assim julgamos. O teatro faz aqui aquilo que a televisão faz há anos: pega num trauma cívico e devolve-o embalado para consumo rápido.
Mesmo assim, há também qualquer coisa de reveladoramente honesto neste espetáculo. Não porque diga a verdade, mas porque mostra o tipo de verdade que o público hoje aceita. Uma verdade simplificada, musicalizada, servida com piscadelas de olho e referências imediatamente reconhecíveis. O “motorista que sabe demais”, a “licenciatura ao domingo”, os amigos muito amigos, o dinheiro explicado pela genealogia materna, as viagens, as cabalas, o narcisismo, a megalomania: tudo isso compõe não um retrato rigoroso, mas um grande painel de azulejo kitsch do Portugal contemporâneo. E o público adora painéis de azulejo, sobretudo quando se pode rir da humidade e do bolor.
Entre o Parque Mayer e o termómetro nacional
A voz de Sílvia Filipe, no papel da devota e apaixonada assessora do governante, destaca-se, sim, e não por caridade crítica: é uma atriz completa, a cantar e a representar. Há, no meio daquele dispositivo todo, uma competência vocal e performativa que dá ao conjunto alguma dignidade artística, mesmo quando o texto se porta abaixo dessa fasquia. Além de Manuel Marques e de Sílvia Filipe, também o elenco secundário — Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sissi Martins e Rita Cruz — segura muita coisa com brio e andamento, evitando que a peça colapse no número único de imitação prolongada.
Mas a pergunta persiste: basta isso? Basta a destreza, a maquinaria, a resposta do público, o brilho das luzes? Para bilheteira, basta. Para fenómeno social, chega e sobra. Para grande teatro satírico, já não tenho tanta certeza.
Porque o melhor e velho teatro de revista do Parque Mayer, “no tempo da outra senhora”, mesmo quando era brejeiro, tinha uma malícia política mais sofisticada do que esta. Sabia bater em cima e ao lado. Sabia cheirar o ridículo sem desistir da inteligência. Sabia que a ordinarice só tem graça quando serve um mecanismo crítico mais fino, como o Herman José transportou depois para a televisão e para os seus espetáculos ao vivo. Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical, pelo contrário, parece às vezes demasiado satisfeito com o seu próprio atrevimento. Como se bastasse pôr um ex-primeiro-ministro a dançar ao som do Código Penal em fanfarra para termos alcançado um momento de grande insolência nacional. Não alcançámos. Alcançámos, isso sim, um espetáculo ligeiro, eficaz, comercialmente astuto, tecnicamente competente e artisticamente irregular, que percebe muito bem o País onde vive e talvez por isso mesmo não o contradiga o suficiente.
Mas talvez a sua utilidade esteja precisamente aí. Em vez de nos dar grande teatro político, dá-nos um termómetro. Mede o grau de cansaço, de cinismo e de disponibilidade do público português para transformar a decadência institucional em entretenimento partilhado. E a leitura é clara: estamos quentes, muito quentes. O Tivoli cheio não é apenas sinal de que o espetáculo resultou. É sinal de que o País já interiorizou o escândalo como género de consumo cultural. Antes líamos a tragédia no Diário da República; agora, no Correio da Manhã. E cantamo-la em coro. Soltem-se as notas, mesmo falsas, no final, com palmas e aplausos de pé.
No fim, saí da sala com uma sensação estranhamente portuguesa: uma mistura de divertimento culpado, irritação estética e resignação cívica. Ri-me, sim. Nem sempre pelas melhores razões, confesso. E talvez seja isso o mais honesto que se pode dizer sobre Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical: é um espetáculo que está muito longe do melhor que a sátira portuguesa pode fazer, mas perigosamente perto daquilo em que o País se tornou: uma democracia cansada, um sistema judicial que parece escrito por Beckett e um público pronto a aplaudir qualquer coisa que transforme a vergonha nacional numa boa e divertida noite de teatro. Alegadamente, claro.