O Barqueiro, a segunda longa-metragem de Simão Cayatte, à primeira vista, nasce de uma ideia, de uma reportagem e de um rio. E não de um rio qualquer: nasce do Tejo real, esse organismo vivo que separa e une Lisboa e a margem sul, carregando séculos de história, mas também — hoje — redes ilegais de apanha de amêijoa, trabalhadores invisíveis e um silêncio institucional tão denso quanto a água turva que o atravessa.
No centro está Joaquim (Romeu Runa), um homem que sai em liberdade condicional após dezasseis anos de prisão e toma uma decisão que define o tom do filme: não dizer nada à família. Como se a liberdade fosse um segredo. Ou uma vergonha. Ou apenas uma pausa antes de enfrentar o que ficou por resolver. Para sobreviver — e cumprir uma promessa antiga: aceita um trabalho arriscado — transportar mariscadores ilegais durante a noite no estuário do Tejo. O objetivo é simples, quase ingénuo: comprar um piano para a filha. Mas como o cinema nos ensinou — e a vida confirma — as promessas mais simples são quase sempre as mais difíceis de cumprir.
À primeira vista, O Barqueiro poderia ser apenas mais um drama social português: precariedade, economia paralela, pais ausentes, margens esquecidas. Mas o que Simão Cayatte constrói é algo mais subtil e mais interessante: um western fluvial. Aqui não há cavalos nem deserto, há barcos e lodo. Não há ouro, há amêijoa-japonesa. E em vez de pistoleiros, encontramos homens e mulheres presos numa fronteira difusa entre sobrevivência e ilegalidade.
A apanha clandestina de bivalves no Tejo não é apenas cenário, é matéria viva. Um fenómeno real, visível nas margens de Alcochete, Montijo ou Samouco, onde centenas de pessoas entram diariamente na água, muitas vezes integradas em circuitos ilegais de exploração. As autoridades sabem, os relatórios acumulam-se, os debates sucedem-se. E o rio continua cheio. É nesse intervalo — entre o que o País sabe e o que prefere não ver — que o filme encontra a sua força.
Há, aliás, qualquer coisa de profundamente contemporâneo neste olhar. Simão Cayatte depois de Vadio (2022), regressa com um filme carregado de lama, precariedade, ilegalidade, sobrevivência. Um cinema que olha para o lado errado — ou talvez mais certo — do País.
Mas no fundo, O Barqueiro não é apenas um filme sobre a apanha ilegal de amêijoas no Tejo. É um filme sobre paternidade. Sobre culpa. Sobre a tentativa — sempre tardia — de reparar o irreparável. Um homem que atravessa o rio carregando trabalhadores ilegais para comprar um piano que talvez já não sirva para pedir perdão. Há qualquer coisa de trágico e absurdamente belo nesta imagem. E talvez seja aí que o filme ganha espessura: na tensão entre o gesto pequeno e o peso emocional que transporta. É precisamente nesse ponto — entre o real e o simbólico, entre o social e o íntimo — que surge a conversa com o realizador. Porque por detrás deste rio, deste homem e desta promessa, há um olhar muito concreto sobre o País. E é esse olhar que tentámos perceber na entrevista que se segue.
Simão Cayatte | O Barqueiro: o Tejo, a culpa e as promessas tardias
O filme nasce de um fenómeno muito concreto — a apanha ilegal de amêijoa no estuário do Tejo. Quando surgiu a ideia de transformar esse universo num filme?
O filme não nasceu exatamente de uma reportagem, como às vezes se diz. Na verdade, tudo começa com um convite que o Paulo Branco me faz depois da estreia da minha primeira longa-metragem, Vadio. Ele propõe-me fazer um novo filme e apresenta-me um argumento escrito pelo Vasco Gato e pela Filipa Martins sobre um homem que sai em liberdade condicional após muitos anos de prisão. Quando começámos a trabalhar sobre esse material e a deslocar a história para Setúbal, percebemos que aquele universo podia ligar-se naturalmente à apanha da amêijoa. Mas o que me interessava não era apenas a amêijoa em si. Era sobretudo a questão da escravidão moderna, do trabalho precário, desses trabalhadores invisíveis que aparecem em determinados territórios e desaparecem depois. Durante quase dez anos, fui observando fenómenos semelhantes, na agricultura, na apanha da fruta, em vários lugares do País. São espécies de batalhões de fantasmas que trabalham em condições muito duras. Nunca tinha conseguido encontrar uma forma de abordar isso no cinema. Este filme acabou por ser a oportunidade de juntar essas ideias.
Existem centenas de carros a atravessar a ponte todos os dias sem perceber que ali por baixo estão centenas de pessoas a trabalhar em condições extremamente precárias
O Tejo costuma aparecer no cinema português como paisagem bonita, quase turística. No seu filme surge como um território duro e clandestino. Quis mostrar deliberadamente esse lado menos postal do rio?
Curiosamente, acho que o Tejo é sempre bonito. Mesmo no filme, há momentos em que o nascer do Sol é visualmente muito forte. É difícil tornar o rio feio. O que me interessava era o contraste. Temos centenas de carros a atravessar a ponte todos os dias, pessoas a caminho da praia ou das férias. E muitas vezes ninguém se apercebe de que ali por baixo estão centenas de pessoas a trabalhar em condições extremamente precárias. Esse contraste entre aquilo que vemos à superfície e aquilo que acontece nas sombras interessava-me muito. Há também uma dimensão simbólica. O barqueiro é quase uma figura mitológica: alguém que transporta pessoas de uma margem para a outra, como Caronte na mitologia. É uma personagem que não pertence totalmente a nenhum dos lados.
O filme tem algo de western moderno — homens na fronteira da lei, economia paralela, sobrevivência. Faz sentido falar de um “western fluvial”?
Sim, sobretudo na parte final do filme brincamos um pouco com essa gramática. Durante a escrita havia uma imagem que me perseguia muito: um homem de fato dentro de um barco a motor no meio do rio. Essa imagem acabou por entrar no filme. Depois há também o formato da imagem, mais expansivo, que muitas vezes mostra a personagem pequena dentro da paisagem. Isso aproxima-se um pouco do imaginário do western clássico. Aqui não há cavalos nem desertos. Há barcos, marés e lodo. Mas a lógica dramática é semelhante: personagens que vivem na fronteira da lei.
Enquanto continuarmos a falar de margens e de ‘outros’, o problema continua
Joaquim sai da prisão mas decide esconder a liberdade da própria família. Porque é que a liberdade aparece quase como um segredo?
Existe uma culpa muito forte. O Joaquim mentiu à filha durante anos. Disse-lhe que estava a trabalhar numa plataforma petrolífera no Mar do Norte quando, na verdade, estava preso. Quando ela descobre a verdade, deixa de lhe falar. Por isso ele sabe que o reencontro não vai ser simples. Quando sai um pouco mais cedo da prisão decide não voltar imediatamente. Quer regressar apenas quando tiver algo para oferecer. Também me interessava muito a ideia de alguém que observa a própria vida à distância, um homem que saiu da prisão mas que escolhe não regressar ainda, vivendo entre duas realidades.
No centro da história está a promessa de comprar um piano para a filha. De onde vem essa ideia?
Tenho uma ligação muito forte com o piano. Toquei durante muitos anos e quis trazer a música para o filme. A música funciona como contraponto à dureza da realidade que vemos no rio. Depois existe também a ideia do piano branco como algo quase impossível. A ideia de que um pai pode reparar dezasseis anos de ausência oferecendo um piano é obviamente ingénua. Mas essa promessa funciona como uma espécie de estrela polar para a personagem. É aquilo que o faz avançar.
O barqueiro é alguém que não pertence totalmente a nenhuma margem
Apesar do contexto criminal, o filme parece falar sobretudo de paternidade e redenção?
Sim, acho que é um filme sobre essas duas coisas. Há crime e há uma realidade social muito concreta, mas no fundo é uma história sobre família, pertença e redenção. Isso já estava presente em Vadio. Interessa-me muito essa ideia de pessoas que tentam regressar a casa.
Durante a preparação falou com mariscadores ou pessoas ligadas a esse universo?
Sim, falei com várias pessoas e observei muito o que se passa ali. O que mais me surpreendeu foi perceber como tudo é tão visível. Se passarmos pela rotunda do Samouco na maré baixa vemos centenas de pessoas no rio. É quase um êxodo bíblico. Muitas dessas pessoas vivem em condições extremamente precárias, muitas vezes presas a dívidas ou a cadeias de exploração. O que me inquieta é perceber como, tão perto de zonas extremamente ricas da cidade, existe esta realidade invisível.
O filme pode ser visto como politicamente incómodo?
Espero que sim.
Depois de Vadio, volta a interessar-se por personagens fora do centro da sociedade.
A palavra margens é complicada. Margens são sempre margens de alguma coisa. Se dissermos que o centro é Lisboa, então o Alentejo de Vadio seria uma margem. Mas para quem vive lá aquilo não é margem nenhuma. O que me interessa são histórias de pessoas. Ex-reclusos que tentam reintegrar-se, trabalhadores migrantes, famílias que tentam sobreviver. No fundo, neste caso, é a história de um pai que está a tentar voltar a casa.
A ideia de que um pai pode reparar dezasseis anos de ausência oferecendo um piano é obviamente ingénua
Como foi o trabalho com os atores e o processo de casting?
Grande parte do elenco surgiu através de casting, incluindo a Madalena Aragão. No caso do Romeu Runa, a escolha foi mais consciente desde o início. Eu já pensava nele para o papel. O Romeu tem um trabalho extraordinário como bailarino. A forma como trabalha o corpo, a postura e a forma como ocupa o espaço eram muito importantes para esta personagem. O filme tem poucos diálogos e muitas coisas são comunicadas através da presença física.
E em relação aos restantes atores, nomeadamente Miguel Borges e Sandra Faleiro?
O Miguel Borges interpreta uma personagem que funciona quase como o antagonista da história, embora ele próprio não se veja necessariamente assim. É alguém que acredita que a sua terra foi invadida e que está apenas a tentar sobreviver. Esse discurso é profundamente inquietante e muitas das coisas que diz e faz são moralmente abjetas, o que o aproxima da figura clássica do “mau da fita”. No entanto, o mais interessante é que o ator nunca aborda a personagem dessa forma simplista. Pelo contrário, constrói-a com uma complexidade que torna tudo mais perturbador. Já a Sandra Faleiro representa um ponto de vista diferente dentro da narrativa. A sua personagem vive naquele ambiente e conhece bem a realidade que a rodeia. Sabe o que se passa no rio, ouve os imigrantes a chegar de bicicleta e tem consciência das pessoas que desaparecem nas águas do estuário. Vive, portanto, com esse conhecimento permanente, o que lhe cria um forte dilema moral. A relação que estabelece com o barqueiro introduz, de certa forma, uma possibilidade de mudança dentro daquele mundo.
Enquanto continuarmos a falar de margens e de ‘outros’, o problema continua
Se tivesse de resumir o filme numa única imagem?
Talvez a imagem de um homem muito bem vestido, de fato, dentro de um barco a motor no meio do Tejo, a caminho de uma audição de piano, debaixo da ponte Vasco da Gama, sem perceber muito bem como chegou ali.
Espero que o filme seja politicamente incómodo