Entre memórias de infância, lanterninhas, o Concierto de Aranjuez, e um banho de música clássica ibero-americana, a Orquestra Gulbenkian, Giancarlo Guerrero e Pablo Sainz-Villegas deram, na quinta-feira, um concerto que serviu ao mesmo tempo de viagem sentimental, sessão de cinema interior e lição de elegância sonora.
Em muitas famílias, as grandes divergências ideológicas começam na mesa do jantar e acabam em divórcio ou em comentários passivo-agressivos. Lá em casa, não. Somos pessoas muito civilizadas. Todos os anos a minha mulher compra para nós duas assinaturas da Temporada da Orquestra Gulbenkian e eu compro dois Red Pass do Benfica. É a nossa versão doméstica da separação de poderes: ela garante a elevação espiritual, eu trato do sofrimento coletivo da família e dos amigos. Entre o Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian e o Estádio da Luz, fazemos assim uma espécie de pacto matrimonial entre Mahler e Otamendi, entre Debussy e o fora-de-jogo, entre o refinamento e o desespero. E, honra seja feita, apesar das nossas ausências por trabalho, viagens, vida e outras tragédias modernas, os lugares nunca ficam vazios: vão as filhas, vão amigos, vai quem puder. Porque a cultura, como o futebol, só faz sentido quando circula. E talvez por isso tenha ido a este concerto da Orquestra Gulbenkian com entusiasmo genuíno, quase infantil, embora com aquela melancolia suplementar que por vezes me invade nestas noites: a programação é magnífica, a sala continua linda, a qualidade é absurda, mas depois olho para a plateia e vejo demasiadas cabeças brancas e poucos jovens. Tirando os simpáticos lanterninhas — espécie em vias de extinção, heróis discretos da cultura portuguesa — o futuro não parece ainda ter tomado de assalto a música clássica.
Talvez por isso tenha sempre uma relação afetiva especial com a Gulbenkian. Não apenas como espectador, mas como antigo trabalhador-estudante daquela casa. Fui lanterninha, bilheteiro, rececionista, vigilante de quadros nas exposições. A Gulbenkian foi para mim uma universidade paralela, talvez mais importante do que a outra. Foi ali que apanhei grandes ciclos de cinema, bailado, concertos, exposições, e foi ali também que, nos tempos auspiciosos do Acarte, percebi que a cultura não era uma palavra abstrata para discursos ministeriais nem um bibelot para elites culpadas: era um lugar real onde se podia crescer, ouvir, ver, pensar, ter a universidade e livros pagos e até receber ao fim do mês. Há escolas assim. Ensinam sem moralismo, sem powerpoint, sem gurus. Ensinam pela prática, pela programação e pela insistência teimosa na inteligência.
Ora, o que me levou na quinta à noite ao Grande Auditório tinha nome próprio e fama planetária: o Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, peça central de um programa latino que juntava ainda Mediodía en el llano, do venezuelano Antonio Estévez, a Sinfonia n.º 4 do porto-riquenho Roberto Sierra e as Danzas de Estancia do argentino Alberto Ginastera. Foi exatamente esse o alinhamento apresentado pela Orquestra Gulbenkian nos concertos de 26 e 27 de março, sob direção do maestro Giancarlo Guerrero, com Pablo Sainz-Villegas como solista à guitarra, num programa que a própria Gulbenkian apresentou como uma viagem por repertórios de raiz hispânica e ibero-americana e que até democraticamente estava acessível no streaming no site da Gulbenkian. O concerto de 27 de março foi, penso, ainda gravado pela RTP. Eu assisti ao vivo na quinta, 26 de março.
Mas antes de voltar ao que se passou em palco, convém fazer uma confissão geracional: conheci o Concierto de Aranjuez muito antes de o conhecer realmente. Conheci-o na RTP a preto e branco, nesses tempos em que a televisão pública, quando havia falhas na emissão, punha um cartão imóvel a anunciar “O Programa Segue Dentro de Momentos” enquanto, em fundo, soava o famoso Adagio. Eu, miúdo, danado, queria era o Speedy Gonzalez, os Looney Tunes, qualquer coisa com porrada inocente e aceleração de desenho animado. Em vez disso, levava com a melancolia sublime de Joaquín Rodrigo (1901-1999). Na altura, achava aquilo uma espécie de castigo cultural. Como quase todos os castigos culturais da infância, acabou por me educar. Tanto ouvi aquele tema que se me entranhou. Mais tarde, já adolescente, foi mesmo um dos primeiros LP de música clássica que comprei. Portanto, se hoje consigo ouvir o Adagio, o segundo andamento do Concierto…sem pensar num intervalo da RTP e com uma certa emoção adulta, devo-o em parte a uma falha técnica da televisão pública. Nem tudo o que o Estado e a RTP faziam mal dava necessariamente mau resultado.
É claro que o destino destas obras muito famosas é tornarem-se maiores do que os próprios compositores. Rodrigo ficou condenado, em boa parte da imaginação popular, a ser “o homem de Aranjuez”, tal como Maurice Ravel ficou algemado ao Bolero. A ironia é deliciosa: dois compositores enormes, com catálogos vastos, refinados e riquíssimos, frequentemente reduzidos pelo grande público a uma só peça, como se Camões fosse apenas “aquele poeta do Adamastor” ou Manoel de Oliveira “o senhor muito velhinho que fazia filmes muito parados e compridos”. No caso de Rodrigo, a crueldade é ainda mais evidente, porque o Concierto de Aranjuez, composto em 1939 e estreado em Barcelona em 1940, não é apenas uma obra popular: é uma peça tão perfeita no seu equilíbrio entre elegância clássica, perfume espanhol e melancolia íntima que acabou por engolir quase todo o resto da obra do compositor. A Gulbenkian recorda precisamente isso na apresentação do programa, sublinhando que o concerto continua a ser a grande obra-prima de Rodrigo e um estandarte da cultura espanhola.
E no entanto, por muito que conheçamos a peça, ela só vive a sério quando encontra intérpretes que a tocam como se ainda não tivesse sido gasta por milhões de audições, arranjos kitsch, reclames, elevadores e esperas telefónicas. Foi isso que Pablo Sainz-Villegas conseguiu. Não apareceu apenas para tocar o clássico dos clássicos da guitarra e ir embora com o cheque e os aplausos. Tocou com fogo, brilho, subtileza e uma elegância quase insolente. A sua leitura do Concierto de Aranjuez teve aquilo que muitas execuções perdem: nervo sem histeria, lirismo sem açúcar, virtuosismo sem vaidade de circo. Sainz-Villegas, que a Gulbenkian e outras instituições internacionais apresentam como um dos grandes embaixadores da guitarra espanhola, foi o primeiro guitarrista solista a tocar no Carnegie Hall desde Andrés Segovia e também o primeiro guitarrista a participar na gala de Ano Novo da Filarmónica de Berlim desde 1983; ao longo da carreira apresentou-se em mais de 40 países. E percebe-se porquê. Tem som, presença e, sobretudo, tem fraseado. A guitarra nunca parece pequena ao lado da orquestra; pelo contrário, parece uma inteligência móvel a dialogar com ela.
No Adagio, esse coração melancólico da obra, aconteceu aquilo que às vezes ainda justifica sair de casa: a sensação rara de que uma sala inteira se lembra ao mesmo tempo de qualquer coisa que nunca viveu exatamente assim. Cada ouvinte ouvirá ali uma memória diferente — uma perda, uma tarde antiga, uma viagem, uma separação, um filme, uma pessoa — mas a música cria por minutos uma comunidade sentimental provisória, sem debates televisivos nem sondagens de opinião. É esse o grande milagre. E depois, como bom espanhol de La Rioja, Sainz-Villegas ainda ofereceu uma peça extra da sua terra, uma canção e dança popular que caiu na sala com a alegria certa, sem folclore de aeroporto. Um encore com alma e sem turismo.
O maestro Giancarlo Guerrero, por seu lado, dirigiu tudo isto com mão segura, energia comunicativa e aquela qualidade cada vez mais rara nos diretores de orquestra: parecer que está verdadeiramente a ouvir a orquestra em vez de apenas administrar o trânsito sonoro. Não é um nome qualquer. É um maestro vencedor de seis Grammys, foi durante dezasseis anos a figura central da Sinfónica de Nashville, assumiu em 2025 a direção artística do Grant Park Music Festival de Chicago e tornou-se diretor musical da Sarasota Orchestra na temporada 2025/26. Além disso, regressou esta temporada como convidado a várias orquestras internacionais, entre elas precisamente a Orquestra Gulbenkian, com a qual já teve no passado uma ligação mais regular. E isso notou-se no pulso do concerto: havia rigor, sim, mas havia sobretudo prazer de fazer música. O que parece básico, mas não é. Em demasiados concertos sinfónicos hoje, sobretudo quando o repertório “vende”, há uma espécie de profissionalismo frigorífico. Aqui houve eletricidade.
Foi também graças a Guerrero que o resto do programa não ficou reduzido ao estatuto ingrato de “coisas antes e depois do Aranjuez”. Mediodía en el llano, de Antonio Estévez, apareceu como uma revelação para muitos, inclusive para mim. A peça é curta, atmosférica, quase imóvel na superfície, mas cheia de vibração interna, como se alguém filmasse a planície venezuelana ao meio-dia e deixasse o calor compor a banda sonora. A obra nasceu das memórias de infância do compositor nos llanos e Gulbenkian apresentou-a precisamente como um retrato dessa paisagem abrasada, em que o tempo parece parar mas os pássaros, a percussão, a celesta e o piccolo insinuam que a vida continua a mexer debaixo da imobilidade. Confesso que, ao ouvi-la, pensei menos em paisagens pastorais e mais numa espécie de encontro improvável entre Debussy, um western metafísico e um filme do Werner Herzog tropical perdido entre febres, selva e obsessão. O que é um elogio.
Já a Sinfonia n.º 4 de Roberto Sierra entrou em cena com outra atitude: cor, ritmo, nervo, pulsação caribenha, uma exuberância controlada que nunca resvala para o postal exótico. Sierra, compositor porto-riquenho formado também por influências modernistas, é um desses autores que conseguem fazer uma música sofisticada sem castigar o ouvinte com a obrigação de fingir que está a gostar por dever cívico. A sua sinfonia tem músculo, brilho e apetite. Não é música para penitentes do serialismo nem para snobes que confundem dificuldade com profundidade. É música viva. E foi tocada como tal.
No final, as Danzas de Estancia de Ginastera funcionaram como explosão controlada. Ginastera é daqueles compositores que ainda está vivo que sabem como conquistar uma sala sem fazer concessões tolas. As danças têm pulsação, músculo, imaginação rítmica e aquele sabor argentino que, sem folclore de souvenir, nos lembra que a modernidade também pode dançar. O célebre Malambo final caiu como devia cair: com ferocidade, brilho e um entusiasmo quase físico da orquestra. A Orquestra Gulbenkian, fundada em 1962 e hoje com cerca de sessenta instrumentistas, continua a mostrar nestes programas uma elasticidade impressionante de repertório, do barroco à contemporaneidade, mantendo uma identidade muito própria, sob direção titular do finlandês Hannu Lintu.
E depois há o cinema, claro. Para quem cresceu a ouvir música clássica ao mesmo tempo na rádio, na televisão, em discos comprados com sacrifício e nas bandas sonoras da vida, é impossível escutar estas obras sem que apareçam fantasmas cinéfilos. O Bolero de Ravel, por exemplo, será para sempre contaminado pela cena de sedução trapalhona de 10 – Uma Mulher de Sonho (1979) e pela coreografia final de Maurice Béjart em Uns e os Outros (1981), de Claude Lelouch; esse uso cinematográfico ajudou, aliás, a cristalizar a sua associação pop ao erotismo e ao crescendo do desejo. Já o Concierto de Aranjuez continua a surgir como uma dessas melodias que o cinema e a televisão roubam porque não resistem à tentação da sua beleza melancólica; uma das utilizações mais lembradas continua a ser a do arranjo para brass band em Brassed Off – Os Virtuosos (1996), uma comédia dramático-romântica, escrita e dirigida por Mark Herman. Talvez seja esse o destino das obras verdadeiramente populares no melhor sentido: deixarem de pertencer apenas às salas de concerto para passarem a habitar o imaginário de toda a gente, mesmo de quem não sabe exatamente o que está a ouvir.
No fundo, foi isso que este concerto me devolveu: a ideia de que a música clássica, quando é tocada assim, não é um mausoléu respeitável para pessoas bem comportadas tossirem entre andamentos e baterem palmas só no fim de cada peça. É uma coisa viva, sensual, dramática, cómica, autobiográfica, cinematográfica, física. É uma coisa que começa numa memória da RTP a preto e branco, passa por um emprego de estudante na Gulbenkian, cruza-se com o Bolero de Ravel, com Bo Derek, com Claude Lelouch, com assinaturas anuais compradas em casal como quem organiza uma república doméstica entre a arte e a bola, e acaba numa sala em Lisboa onde uma guitarra espanhola, uma grande orquestra e um maestro nicaraguense-costa-riquenho conseguem, por duas horas, pôr o mundo no sítio. Convenhamos: não é pouco. Sobretudo num país onde tantas vezes se discute cultura como quem fala de um luxo dispensável. Na quinta-feira à noite, no Grande Auditório da Gulbenkian, a resposta foi simples, afinada e sem necessidade de debate parlamentar: a cultura não é um luxo. É uma das poucas coisas que ainda nos impede de falar só em défices, sondagens e penáltis mal assinalados. E, de vez em quando, até nos faz lembrar porque é que valia a pena crescer.