Certos artistas chegam a Hollywood com a passadeira vermelha estendida e tropeçam logo no primeiro close-up que lhes aparece. Charli xcx decidiu entrar de lado, com ironia, gozo e um mockumentary que parece brincadeira, mas não é. The Moment por Charli xcx, realizado por Aidan Zamiri, não é apenas um falso documentário sobre o colapso fictício de uma estrela pop após o sucesso do álbum Brat (2024). É uma operação cirúrgica à cultura da celebridade do século XXI. E, sobretudo, é um teste: pode uma artista hiperconsciente da sua imagem desmontá-la em público sem se perder no processo? Pode. E Charli sabe exatamente o que está a fazer.
A cena mais poderosa de The Moment por Charli xcx não tem coreografia, nem luzes de néon, nem aquele eyeliner agressivo que virou assinatura. Num táxi, Charli limpa a maquilhagem borrada, arranca pestanas postiças, olha para si como quem já percebeu que o espelho também julga. São segundos crus, raros. E ali está uma atriz. O filme brinca com a hipótese de a cantora ter “perdido a cabeça” depois do sucesso. Goza com o merchandising, com cartões de crédito de marca, com decisões de marketing ridículas aprovadas porque “a Kylie disse que era boa ideia”. É sátira, mas nunca é paródia vazia. A estrela está no centro da piada, e isso exige coragem e confiança no próprio talento.
Num evento promocional, um fã diz-lhe que a sua música lhe salvou a vida. O rosto dela endurece. Não há punchline. Há desconforto real, visível. A pressão de ser símbolo de salvação num mundo que consome ídolos como snacks. Ali, Charli não representa uma diva; representa o peso de o ser.
Hollywood adora músicos, mas nem sempre sabe o que fazer com eles. Harry Styles começou promissor em Dunkirk, de Christopher Nolan, mas quando tentou liderar em Não Te Preocupes, Querida e My Policeman, percebeu-se que carisma não substitui técnica. Beyoncé teve momentos sólidos em Dreamgirls, mas nunca deixou de parecer… Beyoncé a tentar ser personagem. Lady Gaga encontrou o papel certo em Assim Nasce Uma Estrela, mas perdeu-se no excesso em Joker: Loucura a Dois. A diferença? Escolhas.
Charli não começou por um drama histórico de prestígio nem por um blockbuster de super-heróis. Circula pelo cinema independente, trabalha com realizadores de visão própria, escolhe projetos onde pode errar sem ser crucificada. Entrou em I Want Your Sex, de Gregg Araki, apareceu em 100 Nights of Hero, de Julia Jackman, — dois filmes bastante aguardados nas estreias de 2026 — integra o universo excêntrico de Romain Gavras em Sacrifice. Pequenos papéis. Cameos. Testes. Ela não quer protagonismo à força. Quer aprender o meio e o ofício.
Há ainda um detalhe que muitos ignoram: Charli vê cinema, muito cinema. A sua conta no Letterboxd tornou-se viral não por marketing, mas por curadoria. Entre os seus favoritos está por exemplo Céline et Julie vont en bateau, de Jacques Rivette, um drama de fantasia francês com mais de três horas. Não é exatamente a escolha óbvia de uma popstar de festival. E isso diz tudo. Trabalha com quem admira, não com quem “dá buzz”. Em The Moment por Charli xcx, ao lado de Aidan Zamiri — realizador e fotógrafo escocês conhecido pelo seu estilo nostálgico e vanguardista na moda e na música — constrói um filme meta, auto-consciente e ácido. Ri-se da cultura influencer, mas também da própria necessidade de validação artística. Quer ser levada a sério, mas nunca perde o sarcasmo.
Depois da estreia no Sundance Film Festival e na Berlinale, fala-se numa viragem de carreira. Talvez. Mas não parece abandono da música; antes, expansão de território. A sua ligação musical à adaptação de O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell (ver caixa), confirma isso: contribui para a banda sonora, aproxima-se da estética gótica e pisa solo cinematográfico sem abandonar a sua identidade musical.
Então, pode tornar-se atriz, estrela? Claro. Mas talvez a pergunta esteja mal formulada. A questão não é se Charli xcx pode ser estrela. É se Hollywood está preparada para uma artista que entende demasiado bem o jogo da imagem para ser engolida por ele. Em The Moment por Charli xcx, desmonta a própria persona. Mostra fragilidade, cinismo, exaustão e o absurdo da fama digital. Não tenta provar que é uma “grande atriz”. Limita-se a ser inteligente. E isso, neste momento, vale mais do que qualquer lição do Método.
Se falhar, falhará a experimentar. Se acertar, poderá tornar-se algo raro: uma estrela pop que não troca identidade por validação crítica. Não quer ser a próxima Lady Gaga nem a próxima Beyoncé. Quer ser autora do seu próprio desvio. E, ironicamente, é isso que a pode transformar numa verdadeira estrela de cinema.
A Banda Sonora de “O Monte dos Vendavais”: Charli xcx Vai do Néon à Charneca
Da era Brat às brumas de O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights), Charli transforma uma banda sonora num gesto de reinvenção, mais manifesto do que encomenda.
A banda sonora de Wuthering Heights não soa a intervalo de carreira, mas a um recomeço estratégico. A colaboração na adaptação de Emerald Fennell foge à tradição das bandas sonoras pop que funcionam como apêndices simpáticos: lisonjeiras, mas laterais. Entre um marco como Shaft e dezenas de discos esquecidos ao lado de lados B, o destino costuma ser o rodapé. Charli viu aqui outra possibilidade.
Depois de Brat (2024) — fenómeno cultural e até adjetivo de dicionário — declarou o fim da “era brat”. Melhor fechar um ciclo em alta do que esticá-lo até à caricatura. O primeiro avanço, House, com participação de John Cale, mostrou que não se tratava de um serviço por encomenda. Longe do hedonismo eletrónico de Brat, surgem cordas tensas, drones sombrios e uma atmosfera gótica que evoca as charnecas de Yorkshire e o nervo do Velvet Underground. A presença de Cale sente-se na fricção entre clássico e eletrónico, na elegância da dissonância.
O disco não renega a identidade de Charli — o Auto-Tune e os refrões pop mantêm-se — mas há uma inquietação nova. Em Dying for You, cordas atonais rasgam batidas quase rave; em My Reminder, melodias luminosas são sabotadas por rajadas discordantes. O som é industrial, abrasivo, mas nunca hermético.
Funciona mesmo para quem não leu Brontë. As canções soam a crónica de uma relação obsessiva e tóxica, plausível tanto no século XIX como numa periferia contemporânea. Desejo, fusão, degradação, ressaca: a narrativa emocional é clara. Uma banda sonora, atonal e disruptiva para um filme de época, mas ainda pop. Essa é a vitória. Nada soa tímido ou provisório. Há confiança e afirmação autoral. Se Brat definiu uma era, Wuthering Heights revela maturidade estratégica. Não é um complemento menor do filme, mas um corpo autónomo, sombrio e ousado. Ao largar o néon e os óculos de sol bratty, Charli encontra talvez a sua forma mais nítida e prova que uma popstar pode fazer música de cinema sem abdicar da sua própria assinatura.