Mr Nobody Against Putin, nomeado ao Oscar de Melhor Documentário, não e um filme sobre guerras, mas uma obra muito particular que conta o que acontece antes, durante e depois da guerra na cabeça das pessoas. Não é um documentário de trincheiras ou cenário de guerra. É um documentário simplesmente passado numa sala de aula, o que o torna muito mais interessante.
O protagonista chama-se Pavel Talankin, ou Pasha, como os miúdos lhe chamam. Professor numa escola primária em Karabash, uma cidade mineira perdida nos Urais, conhecida pelos níveis tóxicos de poluição e não propriamente pelo espírito revolucionário. Talankin não é um dissidente clássico, também não é um oligarca caído em desgraça, nem um jornalista perseguido. É literalmente “ninguém”, como no título: um professor que gosta dos alunos, da sua cidade e de filmar o quotidiano escolar.
E é precisamente aí que o filme ganha toda a sua força. Porque quando Vladimir Putin decide intensificar a chamada “educação patriótica” nas escolas russas após a invasão da Ucrânia, o que poderia ser mais banal do que um professor encarregado de registar atividades escolares? Bandeiras, hinos, juramentos, marchas, discursos sobre a pátria. Tudo normal e sempre filmado. Só que Talankin começa a perceber que está a documentar não uma escola, mas um laboratório ideológico.
Realizado pelo próprio Talankin em colaboração com David Borenstein, o filme é uma bomba-relógio montada com imagens aparentemente inofensivas. A câmara, que devia servir o Estado como prova de cumprimento das directivas oficiais, transforma-se numa testemunha clandestina da construção de uma narrativa nacionalista agressiva. O que vemos é absolutamente perturbador não porque haja violência explícita, mas porque tudo é demasiado organizado, demasiado coreografado, demasiado aceite.
Miúdos de dez anos a marchar. Crianças a repetir slogans como se estivessem a decorar a tabuada. Professores a alinharem-se, uns por convicção, outros por medo. A escola, esse espaço que devia ensinar pensamento crítico, transforma-se num centro de produção de obediência e alinhamento ideológico.
O mais inquietante é a naturalidade, com que tudo isto é feito. O filme mostra como a propaganda não entra aos gritos, nem em discursos inflamados. Entra subtil e alegremente com cartazes coloridos, cerimónias, atividades “cívicas”. Entra na rotina, no recreio, na brincadeira das crianças. E quando damos por isso, já moldou a linguagem, os gestos e os silêncios.
Talankin filma tudo com uma mistura de ironia discreta e desespero contido. Há momentos quase absurdos: crianças entediadas a jurar lealdade à pátria com a mesma energia com que esperam pelo toque de saída. Mas por baixo desse tédio há medo. Medo de falar. Medo de discordar. Medo de que um comentário errado chegue aos ouvidos errados.
Ao longo do documentário, a sala de aula vai-se esvaziando. Alguns alunos desaparecem porque as famílias são mobilizadas. Outros calam-se, outros alinham sem medos ou pudores. A militarização do discurso infiltra-se nas conversas adolescentes. A guerra deixa de ser uma notícia distante e passa a ser um destino provável.
O que distingue Mr. Nobody Contra Putin de outros documentários políticos é precisamente a sua escala. Não há grandes entrevistas com especialistas em matéria militar ou ideológica. Não há gráficos, nem uma narração omnisciente. Há uma câmara na mão de um professor que começa por cumprir ordens e acaba por resistir. Silenciosamente. Filmando tudo.
É um ato de coragem? Sem dúvida. Mas é também um ato de amor. Amor pelos alunos, por uma ideia de educação, por uma Rússia que poderia ser diferente do que é. O filme nunca se transforma num panfleto anti-Putin. Não precisa, basta-lhe mostrar o mecanismo.
E é aqui que o documentário se torna universal em vários sentidos. Porque não fala apenas da Rússia. Fala de qualquer sistema que perceba que a batalha decisiva não se trava nas fronteiras ou com armas, mas nas escolas. Fala da facilidade com que se pode normalizar o absurdo. Fala de como a propaganda moderna é menos sobre gritar slogans e mais sobre repetir narrativas e rotinas.
Formalmente, o filme tem imperfeições. Algumas sequências prolongam-se mais do que seria necessário. A estrutura é orgânica, quase diarística. Mas essa rugosidade joga também a favor do real. Não estamos perante um produto polido de estúdio ou de um cineasta-documentarista com formação específica na área. Estamos perante um professor, um testemunho pessoal feito através de uma câmera.
E há ainda o preço pessoal. Para que o filme existisse, Talankin teve de abandonar a Rússia. O documentário toca nesse exílio apenas de passagem, quase como se não quisesse dramatizar em excesso. Mas a sombra está lá. A coragem não é abstrata e tem consequências.
Num ano em que a categoria de documentário dos Oscars parece particularmente politizada, Mr. Nobody Contra Putin surge como um lembrete de que o cinema pode ser um ato de resistência discreta. Não há explosões. Há câmaras ligadas quando deviam estar desligadas. Não há discursos inflamados. Há perguntas silenciosas.
O título é irónico: “Mr. Nobody”. A história de um “zé-ninguém”. Mas a História ensina-nos que os regimes têm mais medo dos “ninguéns” do que dos heróis oficiais. Porque os heróis são previsíveis. Os professores com câmaras não. No fim, o que fica não é apenas a denúncia de um regime, mas o retrato de uma geração apanhada no meio de uma guerra que começou muito antes dos tanques atravessarem as fronteiras da Rússia. Uma guerra pelas mentes. E isso, gostemos ou não, diz-nos respeito a todos.