Morreu Carlos Saboga. E com ele fecha-se um capítulo discreto, elegante e absolutamente fundamental do cinema português. Tinha 89 anos. Viveu como escreveu: entre países, entre línguas, entre margens. Um homem que nunca pertenceu totalmente a lado nenhum e talvez por isso tenha pertencido tanto ao cinema.
Nasceu na Figueira da Foz, em 1936, no Portugal de Salazar, onde pensar era perigoso e ler podia ser subversivo. O pai, operário e militante comunista, passou 15 anos preso. A mãe também conheceu as celas do regime. Saboga foi detido duas vezes pela PIDE. Não houve terceira: em 1965, fugiu “a salto”, clandestino, agarrado a uma equipa francesa que filmava em Portugal. Era assistente de realização. Queria ser realizador. Tornou-se exilado.
Viveu em Paris, Roma, Argel. Voltou a Paris. Naturalizou-se francês. E nunca deixou de ser português, mesmo quando dizia que se sentia estrangeiro em todo o lado. “A condição de estrangeiro é determinante”, confessava. Nota-se no sotaque, dizia. Mas nota-se sobretudo na sua escrita, para cinema.
Saboga não foi apenas um argumentista; foi um verdadeiro escritor de cinema. Um homem que entendia que a História não serve apenas de pano de fundo: é personagem. Em O Lugar do Morto (1984), escrito com e para António-Pedro Vasconcelos, ajudou a criar um dos maiores sucessos do cinema português pós-25 de Abril. Em Jaime (1999), também do mesmo realizador, voltou a explorar as fraturas íntimas de um país em transformação. E em Aqui d’El Rei! (1992), mergulhou na memória colonial, com a distância crítica de quem conhece o peso da narrativa oficial.
Mas foi com o realizador chileno Raúl Ruiz que o seu nome ganhou verdadeira dimensão internacional. Mistérios de Lisboa (2010) — esse fresco camiliano de quatro horas e meia — venceu o Prémio Louis-Delluc, brilhou no Festival de San Sebastián e colocou Saboga no mapa europeu dos grandes argumentistas. Não lhe interessavam as batalhas; interessavam-lhe os anónimos esmagados por elas. O Duque de Wellington era, no argumento inicial de As Linhas de Wellington (2013), quase uma sombra. Com Valeria Sarmiento — viúva de Ruiz — aprofundou essa linha épica e literária.
Com Mário Barroso reinventou Amor de Perdição como rebelião adolescente em Um Amor de Perdição (2012) e expôs a hipocrisia social em Ordem Moral (2021), com Maria de Medeiros. Com o produtor Paulo Branco manteve uma amizade — dir-se-ia antes cumplicidade — de cinco décadas, iniciada em Pesaro, em 1973, por intermediação de António-Pedro Vasconcelos. Branco disse-lhe uma vez que ele lhe trouxe “um olhar e uma visão do mundo”. Não é pouca coisa.
Realizador aos 75. Porque nunca é tarde para começar. Num país onde aos 40 já se fala de carreiras consolidadas e de cineastas-autores premiados, ele decidiu começar. Photo (2012) e A Uma Hora Incerta (2015) têm em comum os temas do exílio, da culpa, da deserção, esse “vago perfume de traição” que ele próprio reconhecia como autobiográfico. Não são filmes exuberantes, são filmes pensados, filmados como quem escreve um livro de memórias: a infância e o Estado Novo como fantasmas recorrentes.
Disse uma vez que a História tinha, para ele, a importância de um cenário. Mas um cenário vivo, que molda personagens e destinos. Talvez por isso o seu último trabalho tenha sido outra adaptação de Camilo Castello Branco: Memórias do Cárcere, realizado por Sérgio Graciano, já terminado e com estreia marcada para setembro. Saboga ainda o viu. Despediu-se a escrever sobre a prisão. Coerência absoluta.
Era um estrangeiro permanente, e por isso há qualquer coisa de profundamente português nessa ironia: um dos maiores argumentistas nacionais viveu quase toda a vida fora do País. Colaborou com jornais, foi crítico, apresentou televisão na França, escreveu séries, traduziu literatura. Nunca teve diplomas. Raramente foi recompensado como merecia. Mas foi respeitado. Em 2023 recebeu o Prémio Sophia Carreira da Academia Portuguesa de Cinema.
Carlos Saboga pertenceu a uma geração que discutia cinema no Vavá, que atravessou fronteiras a pé, que acreditava que a cultura era uma arma. Era amigo de João César Monteiro, de Alberto Seixas Santos, cúmplice de António-Pedro Vasconcelos. Uma geração que viveu a ditadura, fez a revolução e depois teve de reinventar o país, muitas vezes à distância. Morreu em Paris. Como viveu: estrangeiro. Mas deixa-nos uma obra que ajuda a explicar quem fomos e quem ainda somos. Saboga lembrava-nos que escrever é pensar e que pensar exige tempo, memória e coragem.
Falamos agora dos filmes da semana, dos prémios, das plataformas. Mas convém lembrar que o cinema português também se construiu com homens como Carlos Saboga: discretos, cultos, exilados, teimosos. Homens que escreviam o mundo antes mesmo de ele chegar ao ecrã. Carlos Saboga não era uma vedeta. Era mais importante do que isso. Era o arquiteto invisível de muitas das nossas histórias. E sem arquitetos, meus caros, as casas caem.