Entre a exigência artística, a centralidade nas mulheres e atrizes, o rigor absoluto, partiu uma das figuras maiores do cinema português contemporâneo. O cinema português está destroçado.
Morreu o cineasta João Canijo. E com ele desaparece uma das vozes mais rigorosas, mais exigentes e mais consequentes do cinema português das últimas décadas. Faleceu aos 68 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante, deixando uma obra marcada pela intensidade emocional, pelo confronto permanente com a realidade e por uma rara coerência artística.
Canijo nunca fez cinema para agradar ao público, mas o que é facto é que agradava. Não procurou consensos fáceis, nem se moldou às modas, nem se deixou seduzir por fórmulas comerciais, mas os seus filmes têm alguns dos melhores números de espectadores do cinema português dos últimos anos. Para além dos prémios internacionais. O seu cinema foi sempre um cinema de risco, de tensão, de corpos em conflito e de relações à beira do colapso. Um cinema que exigia tanto de quem o fazia como de quem o via.
Desde Noite Escura (2004), apresentado no Festival de Cannes, passando por Sangue do Meu Sangue (2011), até à dupla Viver Mal e Mal Viver, o último distinguido com o Urso de Prata do Júri em Berlim, em 2023, construiu um percurso autoral sólido, reconhecível e profundamente pessoal, que se estendeu também ao teatro e ao trabalho de actor, um ‘método’, próprio que deu igualmente um documentário: “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor” (2011). Cada filme era uma variação sobre o mesmo tema essencial: a fragilidade humana confrontada com estruturas familiares, sociais e emocionais que esmagam, pressionam e testam os limites.
Uma das marcas mais evidentes da sua filmografia foi a centralidade das personagens femininas. Canijo criou alguns dos mais complexos, intensos e memoráveis retratos de mulheres no cinema português. Fê-lo sem paternalismo nem idealização, privilegiando a contradição, a dureza e a humanidade plena das suas protagonistas.
O seu método de trabalho era conhecido pela exigência extrema. Apostava em longos períodos de preparação, improvisação e imersão na realidade das personagens. Para ele, o cinema não era um exercício de representação, mas de vivência. “Só me interessa a verdade delas”, afirmava, referindo-se às atrizes. Esse rigor marcou profundamente todos os que com ele trabalharam.
Em Fátima (2017), por exemplo essa abordagem tornou-se particularmente visível. Antes de escrever o filme, realizou ele próprio a peregrinação a pé, procurando compreender fisicamente o esforço, o cansaço e a resistência envolvidos. O filme afastava-se da leitura religiosa para se concentrar na dimensão humana, corporal e social da experiência.
Antes de se afirmar como realizador, estudou História na Faculdade de Letras do Porto e trabalhou como assistente de realização de cineastas como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter. Essas experiências ajudaram a consolidar uma ética de trabalho baseada no rigor, na disciplina e na seriedade artística.
À data da sua morte, João Canijo tinha dois filmes concluídos em fase de pós-produção — Encenação e As Ucranianas — e um projeto teatral associado, pelo menos o primeiro filme centrado no universo da criação artística e no confronto entre intérpretes e criadores é protagonizado por Miguel Guilherme. Obras que permanecem como testemunho final de um percurso ainda em plena actividade.
A morte de João Canijo representa uma perda profunda para o cinema português. Num contexto frequentemente marcado pela precariedade, pela instabilidade e pela tentação do facilitismo, foi uma referência de exigência, coerência e integridade.
O seu legado não se mede apenas em prémios ou distinções internacionais. Mede-se, sobretudo, na influência que exerceu sobre várias gerações de actores, técnicos e realizadores, na defesa intransigente de um cinema adulto, exigente e comprometido com a realidade.
Partiu um cineasta que acreditava no cinema como trabalho sério, como construção paciente e como forma de interrogar o mundo. Fica uma obra sólida, incómoda, intensa e absolutamente necessária.