Quando um filme luso-britânico sobre precariedade e solidão na Escócia ganha o Prémio Discovery dos EFA — Prémios do Cinema Europeu — percebe-se que o cinema português continua a furar fronteiras e a conquistar galardões internacionais.
Ninguém pode negar que o cinema português tem o estranho hábito de ganhar prémios lá fora antes de ganhar atenção cá dentro. Acontece com regularidade clínica. Desta vez foi On Falling, da realizadora portuguesa Laura Carreira, a colocar outra bandeira no mapa e, ironicamente, não precisou de filmar Portugal — com produção luso-britânica pela BRO Cinema e pela Sixteen Films, produtora fundada por Ken Loach — para o fazer. Bastou-lhe filmar a Escócia e aquilo que sempre nos acompanhou desde os Descobrimentos: a precariedade, a solidão e a eterna condição de emigrante.
O filme chama-se On Falling e acabou de vencer o Prémio Discovery da Academia Europeia de Cinema (EFA), o equivalente europeu aos Óscares e, designadamente, ao prémio “Olá, o Futuro é Teu, Aproveita”. No currículo recente, On Falling já tinha acumulado o BAFTA Escócia (duas vezes: Argumento e Filme de Ficção), um prémio de realização em San Sebastián e o Prémio de Primeira Longa-Metragem no Festival de Londres. Ou seja: Carreira faz aquele percurso clássico de quem já está a trabalhar para o futuro: estreia a sua primeira longa-metragem, ganha meia dúzia de festivais, aplausos e crítica rendida (o Prémio Discovery é atribuído pela Academia Europeia de Cinema, juntamente com a Federação Internacional de Críticos de Cinema — FIPRESCI), prémios no bolso, indústria atenta. O típico “mete isto no radar imediatamente”.
Nasceu no Porto, vive há mais de uma década no Reino Unido e, antes de chegar às longas, fez duas curtas que já anunciavam o seu talento: Red Hill (2018) e The Shift (2020), dois filmes secos, focados, com uma câmara que observa em vez de discursar. Em On Falling leva isso mais longe: segue Aurora (Joana Santos), jovem portuguesa emigrada na Escócia, condenada à dança absurda dos contratos temporários, plataformas, turnos rotativos. A certa altura o espectador percebe que o horror contemporâneo não tem monstros, tem folhas de Excel e bips de scanners de códigos de barras.
E, porque o cinema se faz de rostos tanto quanto de gestos, convém sublinhar o extraordinário trabalho da actriz Joana Santos, distinguida no Festival Internacional de Salónica. Nada histriónico: apenas alguém a tentar sobreviver num país frio, com um salário quente como um cubo de gelo. A ficção, como sempre, a milímetros da realidade.
O mais curioso é que o triunfo de On Falling não é um caso isolado, é mais um capítulo silencioso de um fenómeno óbvio: o cinema português, quando sai, não volta com as mãos vazias. Não estamos a falar de blockbusters ou “conteúdos” para streaming; estamos a falar de cinema de autor, de visão, de risco, o tipo de cinema que continua a ter vida na Europa porque lá fora ainda se acredita que a arte não tem de ser simpática, nem redentora, nem obedecer às regras de marketing da indústria de Hollywood.
É irónico, mas o cinema português tem sido descoberto pela Europa ao mesmo tempo que Portugal descobre a Europa através do cinema. E Laura Carreira, com uma primeira longa que parece terceira ou quarta, demonstra o óbvio: não é preciso filmar Lisboa, nem fado, nem o Atlântico para fazer cinema português. Às vezes basta filmar a condição humana e os portugueses emigrantes no estrangeiro, como fez aliás também Ana Rocha de Sousa em Listen ou Marco Martins em Great Yarmouth: Provisional Figures.
Se alguém ainda perguntava se o cinema português tem futuro, a resposta está aí: tem, está vivo e já está a ganhar prémios enquanto discutimos o fecho das salas de cinema.