Rob Reiner, o realizador, ator, produtor, ativista e filho do famoso desenhador de comics Carl Reiner foi encontrado morto este domingo na sua casa em Brentwood, Los Angeles, ao lado da mulher, a fotógrafa Michele Singer Reiner. Foi um aparente homicídio, com facadas, portanto a investigação está em curso. É um daqueles enredos que Reiner nunca teria escrito e que nenhum dos seus espectadores e admiradores aceitaria como final.
Reiner tinha 78 anos. Michele, 68. Estavam casados desde 1989. E o choque não vem apenas da violência da notícia, mas do contraste brutal com a obra de um homem que construiu uma carreira inteira a lembrar-nos que a humanidade, apesar de tudo, ainda valia a pena. Mesmo quando era patética. Especialmente, quando era patética.
Rob Reiner foi o grande cronista das nossas fragilidades coletivas. O homem que filmou uma banda de heavy metal tão absurda que parecia um documentário (Isto é Spinal Tap), quatro miúdos a caminhar sobre carris rumo ao fim da inocência (Conta Comigo), uma princesa, um espadachim mascarado e um amor impossível (A Princesa Prometida), uma escritora sequestrada por uma fã psicótica (Misery—O Capítulo Final), dois adultos a tentar perceber se amizade e sexo podiam coexistir (Um Amor Inevitável), e um tribunal inteiro a discutir honra enquanto Jack Nicholson gritava “You can’t handle the truth!”/[Vocês Não Conseguem Lidar Com a Verdade] em Uma Questão de Honra.
Poucos realizadores conseguiram, como ele, atravessar géneros com tamanha leveza e eficácia. Comédias românticas, dramas de crescimento, sátiras ferozes, thrillers claustrofóbicos, filmes de tribunal, tudo lhe assentava e realizava com o maior profissionalismo. Talvez porque Reiner nunca tentou ser maior do que as histórias. Limitou-se a servi-las bem. Hoje isso até pode parecer revolucionário.
Antes do cinema, foi ator e interpretou “Meathead”, a alcunha do personagem Michael Stivic, um genro liberal de Tudo Em Família, numa sitcom que ajudou a redefinir a televisão americana dos anos 70. Ganhou Emmys, foi nomeado para os Golden Globes, e fez o percurso clássico do “nepo baby” que, ao contrário de tantos outros filhos de celebridades e autores famosos, justificou cada privilégio com trabalho, talento e uma ética rara. Ele próprio dizia que Conta Comigo tinha sido o primeiro filme feito fora da sombra do pai. E sentia-se isso: ali não há ironia defensiva, só memória, perda e ternura.
Reiner também foi produtor influente, co-fundador da Castle Rock Entertainment, a casa por trás de Os Condenados de Shawshank, da série Seinfeld e de outros pilares da cultura popular. Mais tarde, queixava-se — com razão — de que Hollywood já não queria pequenos filmes com alma. Queria apenas números obscenos e argumentos reciclados. E é verdade. Reiner era de outro tempo: o tempo em que contar histórias ainda era uma ambição suficiente.
Politicamente, nunca se escondeu. Foi ativista, anti-Trump militante, defensor dos direitos civis, do casamento igualitário, da saúde pública. Irritou muita gente. E ainda bem. Um artista inofensivo não pode ser só uma decoração.
A ironia cruel é esta: um homem cuja filmografia é atravessada pela ideia de comunidade, amizade e amor acaba a sua vida num cenário de violência doméstica ainda por explicar. Um realizador associado ao conforto emocional do cinema morre num caso que parece saído de um pesadelo de film noir. O contraste é tão violento quanto a notícia.
Rob Reiner deixa quatro filhos, uma obra que atravessa gerações e uma pergunta incómoda: como é que um contador de histórias tão profundamente humanas tem um fim tão desumano? Talvez não haja resposta. Talvez a vida, ao contrário dos filmes dele, não garanta finais satisfatórios. Mas fica o essencial: enquanto houver alguém a citar A Princesa Prometida, a rir com os ridículos Spinal Tap, a chorar com Conta Comigo ou a acreditar que Harry e Sally tinham mesmo de acabar juntos, Rob Reiner não desaparece. O cinema, esse sacana sentimental, continua a ganhar. Mesmo quando perde.