Woody Allen faz 90 anos a 1 de dezembro. Noventa. Uma idade em que os comuns mortais pedem mantas polares no colo e pantufas nos pés, consultas de reumatologia e um chazinho para dormir, quando ainda cá estão. Mas Allen – Allan Stewart Konigsberg, na certidão de nascimento – quer outra coisa: fazer mais um filme, criar mais uma polémica, filmar em mais uma cidade europeia para apanhar a neurose ainda fresca. É um dos maiores comediantes do século XX, um cineasta que redefiniu a comédia sofisticada, o drama existencialista e a arte de transformar ataques de pânico em bilheteira. Goste-se ou deteste-se, ele marcou gerações, irritou outras tantas e continua, com teimosia olímpica, a filmar, a escrever e a tocar clarinete (agora talvez já só sopre) como se nada no mundo – nem tribunais, nem a má fama de forreta nos cachets dos atores, nem os Farrows – pudesse estragar o seu swing.
O génio nasce cedo
Woody Allen já era um menino-prodígio antes de saber que o era. Enquanto os miúdos do Brooklyn pensavam em baseball e gelados, ele pensava na morte e no sentido da vida, algo, claro, perfeitamente normal para um garoto de 5 anos. A mãe ralhava, o pai discutia e Woody fugia: para o humor, para as palavras, para o mundo interior onde cabia metade da neurose de Nova Iorque. Aos 16, escrevia piadas pagas ao quilo para jornais e comediantes; aos 20, escrevia para televisão; aos 30, já tinha mais neuroses do que um consultório de psicanálise na happy hour.