Há detalhes que não sabem morrer. Teimam em habitar-nos os dias e acompanham fielmente a passagem das horas, resistindo à efemeridade do tempo e vestindo a nossa história de espanto e beleza. E não será isso o que mais importa? E vem-me à memória não uma frase batida, mas um silêncio singular, como se, muitas vezes, a música nunca revelasse o seu último segredo. Refiro-me a uma singela pausa de dois segundos no tema A Noite Passada, interpretado ao vivo apenas a voz e guitarra por Sérgio Godinho, mais concretamente após o trecho cantado “cheguei-me a ti, disse baixinho ‘olá’…” (aos 02:49), isto na versão integrada no icónico disco Noites Passadas (1995), trabalho que resulta de gravações ao vivo no Teatro São Luiz e no Coliseu de Lisboa, nos dois anos anteriores. A pulsação e a densidade emocionais desse entre palavras nunca mais me abandonariam e penso nesse interstício comunicante como aquele espaço vazio, discretamente sublime, para onde o olhar se dirige de imediato, entre as magníficas árvores (Rilke), cuja reverberação poética continua a ecoar dentro de nós.
Desconheço – um dia a sul, há vários anos, perguntei a Sérgio e confesso que não me recordo da resposta (e, porventura, ainda bem) – se essa nuance interpretativa terá sido planeada ou fruto daquela espontaneidade, da liberdade, do imediatismo e da vibração irrepetíveis que derivam da comunhão e do diálogo ao vivo com o público, in praesentia, que ele tanto aprecia. Não me interessa desvendar o mistério (até porque “há segredos sagrados / pelo sim, pelo não”, lembram-se?) nem isso seria o mais importante. O que fica é uma espécie de epifania, é o efeito que planta em nós, e essa coisa é que é linda, como diria o seu amigo e cúmplice musical José Mário Branco. Não se trata de uma mera ausência de som, mas de um significante silêncio dramático que nos revela, pela sua profundamente simples carga expressiva, o quanto a arte pode ser também sinónimo de suspensão, expectativa, surpresa e reencontro. E com este singelo pormenor, mais uma vez, Sérgio Godinho soube tocar, como poucos, as cordas do nosso lado esquerdo, aquelas que fazem parar o tempo por breves instantes para logo a seguir nos abraçar (fazendo-nos, metaforicamente, regressar a casa) com uma poeticidade, plena de visualismo, que deixa o lastro maior: “… toquei-te no ombro e a marca ficou lá.”
