Poderia dizer-se que a nomeação do presidente do júri do prestigiado Festival de Cannes dos últimos anos parece obedecer a uma estratégia deliberada para irritar Donald Trump: em 2018, a escolha recaiu sobre uma mulher, a atriz Cate Blanchett, que se tem mostrado bastante vocal sobre o poder das mulheres e a falta de representatividade feminina nos centros de decisão; em 2019, foi a vez do mexicano Alejandro González Iñarritu, que arrebatou Oscars por filmes como Birdman ou a Inesperada Virtuda Ignorância (2015) e The Revenant/O Regresso (2016), e que representa uma história de sucesso numa época em que o presidente dos EUA tem diabolizado os seus vizinhos mexicanos; e agora, em 2020, a escolha recaiu sobre Spike Lee, que não tem poupado nas críticas duríssimas ao atual presidente americano.
É a primeira vez que um afro-americano ocupará o cargo, e a decisão está a ser apelidada de “histórica”. Spike Lee, 62 anos, escolhido para presidir à 73ª edição do certame que terá lugar entre 12 e 23 de maio deste ano, declarou em comunicado sentir se “honrado por ser a primeira pessoa da diáspora africana” nos Estados Unidos da América a assumir as funções de presidente do júri de Cannes, ou de qualquer festival cinematográfico de primeira linha. “Quando me contactaram para presidir ao júri de Cannes 2020, não acreditei. Estava feliz, surpreendido e orgulhoso ao mesmo tempo”, confessou o realizador negro.
Vencedor do Grande Prémio de Cannes 2018, com o filme BlacKkKlansman – O Infiltrado, Spike Lee tem uma longa relação com o festival: aí estreou sete películas suas, incluindo She’s Gotta Have It (1986), Do The Right Thing – Não Dês Bronca (1989), Jungle Fever (1991), Girl 6 (1996), Summer of Sam (1999) e Ten Minutes Older (2002). BlacKkKlansman – O Infiltrado acabaria por ganhar ainda um Oscar da Academia para Melhor Argumento Adaptado, com a história baseada num caso verídico: o de Ron Stallworth, primeiro agente afro-americano a trabalhar no departamento da Polícia de Colorado Springs, que se infiltra na Ku Klux Klan, grupo de supremacistas brancos. “Para mim, o Festival de Cinema de Cannes, além de ser o mais importante festival do mundo (sem querer desrespeitar ninguém), teve um grande impacto na minha carreira. Poderia facilmente dizer que Cannes mudou a trajetória de quem sou no mundo do cinema”, acrescentou o realizador.

Cineasta, argumentista, produtor, ator, professor, batizado com o nome de Shelton Jackson Lee, nascido em Atlanta em março de 1957, e proeminente residente da comunidade de Brooklyn, Spike Lee sempre fez do seu cinema uma plataforma militante em que as questões raciais ocupam lugar central. O realizador tem sido igualmente uma das vozes mais críticas das políticas do presidente Trump, a quem se refere sempre como o Agente Laranja, assim como dos valores da alt-right, argumentando que é preciso que os afro-americanos, os liberais e os norte-americanos em geral parem de sucumbir à “atitude do okey-dokey”, o “tudo bem”. Sobre as eleições presidenciais dos EUA, agendadas para 2020, Spike Lee disse, em 2018, durante a sua presença no Festival de Cinema de Los Cabos, no México: “Teremos de escolher entre o ódio e o amor. Aí se verá a alma dos Estados Unidos.”