Enquanto as paredes das suas muralhas parecem cada vez mais vistosas e até luxuriantes para quem vê de fora. O império chinês definha nas suas entranhas, com recorrentes hemorragias internas, difíceis de estancar. Esta úlcera que ataca os órgãos essenciais chama-se capitalismo. A velha China não estava preparada para isto. De forma bruta, encontra-se esta mensagem em China, Um Toque de Pecado, de Zahangle Ja-Zhe, porventura o mais considerado cineasta chinês da atualidade, autor de obras de uma decadência encantatória, como O Mundo (2004), Natureza Morta (2006) e 24 City (2008), que lhe valeram prémios nos mais importantes festivais mundiais. Nos filmes anteriores partia de uma base cénica para subtrair consequências sociais: o ponto de partida são lugares fantasma ou em ruína, muitas vezes realisticamente fantásticos, como O Mundo (uma espécie de mundo dos pequeninos em formato gigante, ou a cidade por habitar de 24 City). Aqui faz precisamente o contrário, vai diretamente ao drama humano, à falência de valores da sociedade chinesa, encalacrada entre o pseudo comunismo e o capitalismo selvagem, em que se corroem os alicerces que a sustentam, por via da corrupção ou da importação forçada de maleitas ocidentais. O retrato de Zahangle Ja-Zhe é devastador. Um ágil cruzamento de histórias que têm como ponto comum o crime ou o pecado, onde o verdadeiro protagonista é a China. Na primeira história, que parte de um cruzamento de personagens e acontecimentos brutais, há uma ideia de deriva, de um país sem norte, onde a arbitrariedade leva a um constante desconforto social. A passagem pela vila do primeiro episódio lembra-nos até Sergei Loznitsa, em My Joy (2010), em que a personagem principal anda à deriva, sem consciência, depois de um assalto violento a ter deixado demente. Neste mundo por onde a personagem circula, progressivamente insano, há um estado geral de loucura social, expresso, por exemplo, na violência com que o camponês insiste em chicotear o seu cavalo. Este episódio, porventura o simbolicamente mais pertinente, revela uma luta de um homem só contra um sistema corrupto e uma sociedade. A falência moral da sociedade chinesa repete-se sob outras formas nos episódios que se seguem. Como o serial killer que visita a família, que mata porque tudo o resto lhe aborrece. É uma personagem fria, mas com uma noção mínima de família, ao exemplo de alguns retratos norte-americanos. Ou o adultério do terceiro quadro, que acaba numa violência extrema, que não é fruto direto da situação adúltera em si, mas antes de uma violência social intrínseca. A ideia repete-se ainda no universo dos trabalhadores do sexo, do episódio seguinte, onde em que se ilustra o imperativo do capital e dos seus vícios e a fragilidade em que cai uma sociedade deturpada pela ganância, que substituiu os princípios de igualdade fraternidade, por uma selvajaria primária. Um Toque de Pecado, de Zahangle Ja-Zhe, mostra uma China em queda livre. Um Toque de Pecado, de Zahangle Ja-Zhe, com Jiang Wu, Li Vivien, Wang Baoqiang; 133 min
UM TOQUE DE PECADO Crimes exemplares
Enquanto as paredes das suas muralhas parecem cada vez mais vistosas e até luxuriantes para quem vê de fora. O império chinês definha nas suas entranhas, com recorrentes hemorragias internas, difíceis de estancar. Esta úlcera que ataca os órgãos essenciais chama-se capitalismo.É o que se lê no último filme de Zahangle Ja-Zhe,