O comboio é o meio de transporte maiscinematográfico do mundo. Já os irmãos Lumiére o tinham percebido. Este encantador(quase enternecedor) filme da atriz/realizadora Delpy começa com a personagemdentro de um; uma mãe de família contristada porque os restantes passageirosnão se sensibilizam pelo seu pedido: o de cederem os seus lugares para que elae a família, o marido e duas crianças, possam viajar juntos. Porque este pedidonão é um mero capricho, como veremos nas próximas quase duas horas, mal estamãe se senta no seu lugar, e avança às arrecuas, como num flash-back. Daí anada o comboio já soa de outra maneira, ela tem apenas 11 anos, e o que dantesse fazia em seis horas (Paris-Bretanha), faz-se agora em três. O que se seguesão os dias loucos de uma enorme família reunida, numa quinta. E as suasbalbúrdias e banquetes, as suas diferenças, as suas incoerências, as suascrianças e os seus velhos, surdos e senis. E toda a dinâmica familiar, em queàs vezes chove, outra vezes faz sol, e chora-se e ri-se, tal como lá foraexistem abertas entre os aguaceiros. Depois há raios de sol, como alegriassúbitas. E as crueldades do crescimento, e as do envelhecimento, e as doestagnamento. Durante um almoço assa-se um bezerro, sob o olhar insistente dosoutros membros do rebanho. É um filme sobre as memórias, boas e más, asprimeiras desilusões amorosas de uma menina precoce, os primeiros filmes (oTambor baseado no Gunter Grass e o Apocalipse Now), a primeira menstruação, eoutros tantos pequenos absurdos do quotidiano, como uma canção infantil macabra.E uns são sanáveis, outros não. Porque uns primos são conservadores de direita,outros filhos do Maio de 68, outros retornados de Saigão, outros campónios,destituídos de qualquer sentido cultural. Mas viajam juntos, em família… É istoque o une. E enquanto isto, o satélite Skylab, lançado pela Nasa, anda lá porcima…
De Julie Delpy. Le Skylab, com JulieDelpy, Aure Atika, Eric Elmosnino, Lou Avarez, Noémie Lvocsky. Comédia. 113min. França. 2011