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O fim do mundo é Kirsten Dunst, já com cara de day after, a abrir os olhos muito lentamente, sob uma chuva de pássaros mortos. O fim do mundo é um cavalo a tombar em slow motion. O fim do mundo é uma mãe (Charlotte Gainsbourg) a agarrar no filho e a fugir num relvado fundente. O fim do mundo é uma noiva num bosque escuro, presa ao solo por malhas cinzentas de um novelo sinistro. O fim do mundo é o inquietante e desolado quadro Os caçadores na Neve, de Brughel, o Velho. O fim do mundo é um céu electricizante ao som de Tristão e Isolda de Wagner. O fim do mundo é absurdamente bonito, magneticamente arrebatador. É com este muito wagneriano deslumbramento operático, de requintadas composições, que Lars von Trier (só podia ser ele) encena o cataclismo final do planeta, num prólogo de oito minutos, no seu novo filme Melancolia (estreia-se, quinta-feira, dia 1 de Dezembro). E do colapso planetário que o realizador dinamarquês perversamente converte em imagens de êxtase, insanamente maravilhosas, cortamos para uma cena trivial. Um casal de noivos divertido, a tentar chegar à mansão onde os espera uma faustosa festa, numa, não menos faustosa, mansão, a tentar passar com a sua imensa limusine branca por um carreiro com curvas demasiado apertadas. Kirsten Dunst está mais solar do que nunca (ganhou o Prémio de Melhor Atriz em Cannes, antevê-se uma nomeação para os óscares), mas com o correr do filme, o seu adorável rosto ficará mais e mais sombrio. E a luz nos olhos, algo vagos e reptilianos, vai-se apagando como um fade out. E o que parece lúdico, os desaires atrapalhados de uma viatura excessiva, filmados pela câmara inquieta e derivativa de von Trier, já é um prenúncio de desadequação. Como se um filme com um prólogo destes precisasse de prenúncios… Mas precisa, porque antes da fase telescópio, temos de passar pela fase microscópio – toda a primeira parte do filme decorre numa única noite, durante o copo de água da noiva Justine (Dunst). Temos de ver os seres humanos no formigueiro dos seus absurdos rituais, na essencialidade das suas insignificâncias. E Justine já olha para eles assim, como os caçadores de Brughel (curiosamente já em Tarkosvky, este quadro era convocado), olhavam para as pessoas, pequenos vultos diligentes a patinar num lago gelado, com uma ascendência de soturnidade anunciada. Ela é uma noiva sob influência. Aos poucos revela-se-lhe a desadequação social. Está sempre a desaparecer. Vai tomar banho durante a festa. Abandona os convidados para ir deitar o sobrinho e adormecer na cama dele. Urina no relvado. Deixa o noivo para ir fazer sexo com um desconhecido que não lhe interessa nada. Chama “homenzinho desprezível sedento de poder” ao chefe. Não sabe o que fazer ao bouquet que lhe metem entre as mãos… Ela está em dessincronia com a realidade mas absolutamente sintonizada com a catástrofe que se avizinha. Desadequada do cosmos, apta para o caos.
A segunda parte do filme, é a fase telescópio. E existe aqui um cruzamento curioso, porque a primeira hora terrena leva o nome de Justine que tem a cabeça no espaço. A segunda leva o nome da irmã, Claire (Gainsbourg), que tem os pés muito assentes na terra, e por isso teme o espaço. O planeta gigante Melancolia, até agora desconhecido, ocultado que estava pelo Sol (lá está o sadismo de Lars Von Trier também a revelar-se), entra em rota de colisão com a Terra. Justine esforça-se muito por parecer normal, por estar apaixonada, casar-se e fazer as coisas que as pessoas fazem, mas entra em melancolia, depressão severa. Que começa a revelar-se no momento em que entra na biblioteca e muda as páginas dos livros de arte, abertas na pintura abstrata, para o pré-rafaelita John Millais, a louca Ofélia a flutuar nas águas, ou para o beijo sufocante de Klimt, ou para C
aravaggio, Bosch ou Brughel. Não consegue tomar banho, o rolo de carne sabe-lhe a cinzas. Mas quando as coisas estão trágica e fatalmente descontroladas, ela, ao contrário da irmã em pânico, assume o controlo, com uma calma sinistra e muito zen. Não tem nada a perder com o fim do mundo, nem um filho. É a provocação niilista de Trier. Com a sua coreografia perfeita para o fim de tudo, e que transportaremos subcutaneamente, durante algum tempo, depois do filme acabar, com o derradeiro vagido da Terra.