<#comment comment=”[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment=”[if gte mso 9]> <#comment comment=” /* Font Definitions */ @font-face {font-family:”Cambria Math”; panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:roman; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-536870145 1107305727 0 0 415 0;} @font-face {font-family:Calibri; panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:swiss; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:-520092929 1073786111 9 0 415 0;} /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-unhide:no; mso-style-qformat:yes; mso-style-parent:””; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:”Times New Roman”,”serif”; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-fareast-theme-font:minor-latin;} .MsoChpDefault {mso-style-type:export-only; mso-default-props:yes; mso-ascii-font-family:Calibri; mso-ascii-theme-font:minor-latin; mso-fareast-font-family:Calibri; mso-fareast-theme-font:minor-latin; mso-hansi-font-family:Calibri; mso-hansi-theme-font:minor-latin; mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; mso-bidi-theme-font:minor-bidi; mso-fareast-language:EN-US;} @page WordSection1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;} div.WordSection1 {page:WordSection1;} “> <#comment comment=”[if gte mso 10]>
Em La Piel Que Habito há alguém detido dentro de si próprio. Nada de que Almodóvar também não padeça. Também ele anda com as suas obsessões, as suas extravagâncias, os seus desaires, saturados de cor, música e sadismo, presos à pele, há três décadas… Mas neste filme, seguramente o seu melhor desde o inigualável Habla com Ella (2002), Pedro Almodóvar deixa um bocado da sua pele de cobra, seca e engelhada, pelo caminho. Tão longe que está das iniciais comédias pop e dos deslumbramentos kitsh pelas mulheres e seus delírios sexuais, as mulheres dentro dos seus sapatos altos, dos seus hiperbólicos adornos, dos seus mais afogueados figurinos e incendiárias maquilhagens. E ainda bem, porque essa imagem das “chicas almodovarianas” estava demasiado conotada com aos anos 80, e já desgastava. O vermelho neste filme de Almodovar não é o do baton dos lábios femininos mas o do sangue de laboratório, que se expande na lamela do microscópio, que se observa translúcido numa proveta, ou que se suga numa seringa, num enormíssimo plano de pormenor.
E o traje de mulher mais impactante é absolutamente minimalista, uma espécie de meia gigante bege com braços, pernas e dedos, que se veste como uma segunda pele.
Deve ser mesmo uma questão subcutânea para Pedro Almodóvar. Esta vontade de misturar géneros. E neste filme confundem-se tanto os géneros masculinos e femininos, como os géneros cinematográficos. La Piel Que Habito pode ser definido como um trans-cientifico-melodramático-thriller de terror. Um cirurgião plástico de Toledo ( um reencontro com Banderas, 22 anos depois de Ata-me), desenvolve uma espécie de pele transgénica, através de moléculas de porco, depois da sua mulher ter ficado carbonizada num acidente de carro. A esta pele, geneticamente modificada e melhorada (é resistente a queimaduras e picadas de insecto), o cirurgião dá o nome de Gal – uma abreviatura demasiado próxima de Galetea, para não se associar à estátua que ganha vida e ao mito de Pigmalião apaixonado pela própria criação. E então à história do frio e psicopata Dr Frankestein em versão Banderas, que nunca se ri ao longo de todo o filme, junta-se agora a maldição de Pigmalião e ainda a de Caim, que acaba por assassinar o irmão. Como estamos dentro de um filme de Almodóvar também haverá uma mãe/governante (Marisa Paredes) devotada a um dos filhos e que carrega um segredo. Há sempre segredos maternos e familiares que se revelam. E identidades que se ocultam, mas se calhar continuam a existir, por debaixo da pele.
Tudo isto embrulhado numa estética do sangue, do aglomerado de glóbulos vermelhos, na frieza cristalina do bisturi, na indiferença asséptica do bloco operatório. Mas tão depressa se transita do registo gore para momentos melodramáticos, cheios de música por definição: Concha Buika, a voz híbrida de Chris Garneau, e o seu habitual aliado de banda sonora original, Alberto Iglesias. Por duas vezes a história rasa o complexo de Estocolmo, em que o prisioneiro sente uma atracção pelo seu algoz, e uma espécie de vigança de Talião para um violador, mas daí a nada estamos perante uma figura grotesca, que fala num castelhano abrasileirado, veste uma pele de tigre, e lambe o monitor de telecomunicação interna, quando aí aparece a misteriosa mulher do fato de meia que se contorce em posições de yoga e faz da parede um memorial de identidade. Também há outras peles. Ou disformemente cauterizadas como a da mulher do médico; ou ingenuamente intocáveis como a da sua perturbada filha; ou creteriosamente esfiapadas e espalhadas no chão, como os destroços dos vestidos sugados um a um por um sistema de aspiração central. E ainda a pele imaculada e renascentista da Vénus de Urbino, de Ticiano, que comparece no filme em versão XXL, numa megra-reprodução pendurada numa parede. Tudo isto é pele. Tudo isto é Almodóvar.