O Brasil é um país tropical, rodeado por mar e bonito por natureza, onde todo o mundo é feliz, as mulatas dançam samba em biquíni e os homens bebem chopp e falam de futebol. Os filmes brasileiros são de um realismo cru, falam de violência social e abusam da voz off. Os Famosos e os Duendes da Morte, a primeira obra de Esmir Filho, é um rebenta-clichés. Vemos brasileiros de camisola de lã, tristes e deprimidos, a dançar em bailes de tradição germânica e a ouvir música em inglês. Imagens difusas, contadas por flashes, como quem filma a memória ou o pensamento, o que está por dentro e não que está por fora. Há apenas um lugar-comum a que Esmir Filho não escapou: o suicídio que é o tema predileto de autores estreantes. É como se antes de se debruçarem nos abismos do mundo, o primeiro impulso de quem cria é desvendar o abismo das almas.
Se o cinema brasileiro que mais se tem falado endurece determinada linha de Nelson Pereira dos Santos, no tema das favelas, estabelece a ideia neorrealista de denúncia social: cria um pânico claustrofóbico de uma ameaça vinda de fora. Em Os Famosos… todos os perigos vêm do lado de dentro. Uma das cenas mais arrepiantes de Tropa de Elite é a tortura infligida pela polícia aos moradores, asfixiando-os com recurso a um saco de plástico. Logo na primeira cena de Os Famosos…, vimos uma rapariga sorrindo enquanto lhe falta o ar, com um saco de plástico em volta da cabeça. No primeiro filme, o medo vem dos outros, de uma sociedade em que os polícias são tão temíveis como os criminosos. Em Os Duendes, o medo vem das entranhas do nosso próprio corpo, da forma emberbe com que lidamos com a nossa própria fragilidade, como a vida e a morte e sobretudo com o vazio –algo mais silencioso ou ruminante que se esperava antes da cinematografia escandinava.
Esta primeira cena, como se percebe, é apenas um aperitivo, da ideia de jogo perigoso. Porque também há um estranho. E esse estranho, uma pessoa non grata daquela sociedade do Sul Brasil, é a personificação do abismo, que, de resto, é dada pelo próprio adolescente numa conversa com o amigo do alto da ponte, em que fala da força que sente a atraí-lo para baixo.
Há portanto uma figura de enquadramento social difícil, que não se confunde com rebeldia ou espírito insubmisso, mas apenas com as dificuldades que os adolescentes muitas vezes têm em lidar consigo próprios e com os mistérios assombrados da vida que, no limite, levam-nos a desvendar todos os tabus sociais. Isto numa sociedade em transformação, entre o rural e o urbano, onde sobra ainda o carinho dos avós, uma estrutura decadente. A música ganha um espaço denso, com Mr. Tambourine Man, de Dylan, mas sobretudo com os originais de Nelo Johann. Nesta viagem impressiva sobre a adolescência fica o panorama de um filme interiormente intenso e autoflagelado, onde tudo se inverte, até porque no Brasil é só no sul que as terras gelam.
Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, com Áurea Baptista, Ismael Caneppele, Tuane Eggers, 101 min, BRASIL