A estreia de O Dia da Revelaçãoatormentou-me. Não por medo, mas por uma preocupação séria. O novo filme de Steven Spielberg obriga-nos, de facto, a encarar uma pergunta que a humanidade tem varrido para debaixo do tapete desde que descobriu o fogo, inventou a roda, criou o IRS e passou a discutir restaurantes no TripAdvisor: estamos preparados para falar com extraterrestres?
Temos Inteligência Artificial, que já começa a fazer muita coisa por nós — escrever, corrigir, traduzir, aconselhar, baralhar-nos, substituir-nos e, num futuro próximo, provavelmente dizer à nossa mãe que chegamos atrasados ao almoço —, mas será que estamos mesmo preparados para comunicar com uma civilização vinda de outro planeta? Porque um dia destes a nave pode pousar em Fátima, no Alentejo, no parque de estacionamento do Colombo ou, quem sabe, no jardim ou na varanda lá de casa. E não vamos querer receber os visitantes do cosmos perguntando-lhes simplesmente se “têm MB Way” ou se já usam contactless.
Quando digo preparados, não digo preparados no sentido filosófico, científico ou espiritual. Isso é conversa para quem usa blazer de linho, óculos redondinhos e vai a colóquios sobre astrobiologia. Digo preparados mesmo. Na prática. No terreno. De frente para a nave. Na rua. Numa caminhada pela Serra de Monsanto, pela Serra de Sintra, pela Comporta, pela Praia dos Tomates, pelos Passadiços do Paiva, para felicidade de quem ama verdadeiramente a natureza, o ar puro e fotografar-se de costas para a paisagem.
Agora imaginem: a criatura ali numa rua de Lisboa, à nossa frente, com sete olhos, três tentáculos, uma pele meio viscosa e aquela superioridade moral de quem atravessou galáxias enquanto nós ainda estamos a tentar perceber se temos moedas trocadas, se a máquina não está avariada ou como funciona a aplicação para pagar o estacionamento da EMEL sem perder a dignidade.
Quando a nave pousar, cria-se logo uma comissão parlamentar de inquérito
Spielberg volta aos extraterrestres e, como sempre, não fala apenas deles. Fala de nós. Dos nossos medos, da nossa vaidade, da nossa tendência para transformar qualquer mistério cósmico numa conferência de imprensa, num painel da CNN cheio de “tudólogos”, numa thread indignada no X e, se houver oportunidade, num pacote turístico com direito a íman para o frigorífico. Depois de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, E.T. — O Extraterrestre e A Guerra dos Mundos, Spielberg sabe uma coisa que muita gente não sabe, incluíndo os governos, os militares, os comentadores e os gurus de podcast que fingem não saber: o verdadeiro problema do primeiro contacto não é saber se os extraterrestres vêm em paz. É saber se nós conseguimos não estragar tudo logo nos primeiros cinco minutos.
Porque sejamos francos: se uma nave extraterrestre pousasse amanhã em Portugal, os deputados da Assembleia da República criavam imediatamente uma comissão parlamentar de inquérito. Era certinho. Primeiro, alguém perguntaria se a nave tinha licenciamento camarário para aterrar. Depois, a Proteção Civil emitia um comunicado a dizer que estávamos sob “aviso amarelo” e que estava a acompanhar a situação “com serenidade”, apesar de o SIREP não funcionar. Aliás, parece que nunca funciona quando é realmente preciso.
A seguir, aparecia um autarca local a garantir que aquele acontecimento colocava o concelho “no mapa internacional”. Ao terceiro dia já haveria carrinhas de bifanas, t-shirts impressas com “Alien Style”, um festival de música chamado COSMOFEST, três comentadores a discutir se os extraterrestres eram de esquerda ou de direita, e um especialista a dizer que, no fundo, isto já estava previsto no Plano de Recuperação e Resiliência.
E no meio disto tudo, o mais importante: alguém teria de falar com eles. Pois. Aqui é que entra a parte mais complicada. A ficção científica habituou-nos mal. Nos filmes, os extraterrestres falam quase sempre inglês ou então não se percebe nada do que dizem e só atacam com raios destruidores, como nas “soap operas” do apocalipse. Às vezes também falam com sotaque britânico, o que lhes dá logo uma certa credibilidade moral e imperial, como o Darth Vader em A Guerra das Estrelas ou com aquele tom solene do Capitão Kirk em Star Trek. Outras vezes comunicam por telepatia, que é, de facto, a maneira mais elegante de resolver problemas de legendagem.
Mas a realidade, esse detalhe desagradável que costuma estragar a dramaturgia ou o argumento de um filme, seria provavelmente mais aborrecida. E mais ridícula. Para comunicar com uma espécie alienígena — ou extraterrestre, tanto faz — talvez fosse preciso começar pelo básico: apontar para uma pedra, apontar para nós, apontar para eles, perceber se aquele som gutural significa “olá” ou “vamos vaporizar-vos antes do intervalo”.
Um linguista diante de uma nave seria, no fundo, quase como um turista português em Tóquio sem Internet e sem a aplicação de tradutor universal: cheio de boa vontade, completamente perdido, a sorrir demasiado, a falar mais alto do que o necessário, com gestos largos, a apontar para coisas. “Eu. Tu. Água. Paz. Café. Uma bica?” O problema é que um gesto inocente em Portugal pode ser uma declaração de guerra em Alfa Centauri. Nós fazemos um coração com as mãos, eles entendem “destruam a frota-mãe”. Nós levantamos o polegar, eles acham que estamos a insultar a avó cósmica deles. Nós oferecemos um pastel de nata, eles interpretam aquilo como uma arma biológica à base de massa, açúcar e canela, para os envenenar.
Protocolo nacional para não ofender Alfa Centauri
Convém, por isso, antes que seja tarde, estabelecer um protocolo nacional de contacto extraterrestre. E não, não devia ficar entregue apenas a generais, cientistas e ministros. Precisamos de linguistas, claro. De antropólogos, também. De psicólogos, sem dúvida. Mas, sobretudo, de pessoas que saibam lidar com situações impossíveis com serenidade e um sorriso nos lábios. Isto é, vamos precisar sobretudo de muitos anónimos: donos de cafés que têm sempre a televisão ligada na CMTV, enfermeiras das urgências, professores do ensino básico — de preferência reformados —, motoristas da Carris, funcionários das Finanças, gente que já viu de tudo, gente que sabe manter a calma quando alguém pergunta, às 17h29, se ainda pode entregar um papel que devia ter sido entregue em 2008. Se há seres humanos capazes de negociar com uma civilização intergaláctica, são estas pessoas de certeza.
A primeira regra seria simples: não disparar. Parece evidente, mas a humanidade tem uma relação complicada com o óbvio. Vemos uma coisa desconhecida e a nossa primeira reação, enquanto espécie, é tentar matá-la, vendê-la ou fazer uma série documental em seis episódios, no mínimo. Spielberg percebeu isso melhor do que ninguém. Nos seus melhores filmes de extraterrestres, o espanto vem antes da violência. A pergunta vem antes da bala. A criança, o cientista, o sonhador e o maluquinho do bairro costumam compreender mais depressa do que o militar com o dedo no gatilho. O cinema de Spielberg sempre soube que a curiosidade é uma forma de resistência à estupidez.
Segunda regra: não assumir que somos o centro da criação. É desagradável, eu sei. Passámos séculos a convencer-nos de que o Universo era uma espécie de condomínio de luxo construído à volta da nossa sala de estar. Depois veio Copérnico estragar a decoração, Darwin mexer na mobília, Freud abrir o armário e a física quântica desligar a luz. Se agora aparecerem extraterrestres inteligentes, talvez seja apenas mais uma humilhação no longo currículo narcisista da humanidade.
Não somos o centro de tudo. Não somos únicos. Não somos necessariamente interessantes. Podemos ser, para eles, aquilo que uma rotunda com relva artificial é para nós: uma curiosidade local, triste, mas feita com algum esforço municipal, que deu votos.
E, no entanto, a descoberta de vida extraterrestre não teria de destruir religiões, filosofias ou crenças. A humanidade é extraordinária a adaptar narrativas. Se amanhã os extraterrestres aterrassem em Fátima, alguém encontraria uma forma de os integrar no calendário litúrgico, num quinto segredo e, claro, nas procissões das velas das aparições. Se pousassem em Évora, seriam imediatamente considerados património imaterial da Humanidade. Se aparecessem em Lisboa, passavam logo a alugar casa e a ter de pagar, no mínimo, 1000 euros por um T1.
A Igreja, diga-se, tem pensado mais seriamente nisto do que muitos painelistas e comentadores de televisão. A possibilidade de outros mundos habitados não é nova. O que muda é o embaraço de percebermos que talvez Deus, o Universo ou o Grande Argumentista Cósmico não tenha escrito a história apenas para nós. Talvez sejamos uma personagem secundária. Talvez sejamos apenas o figurante desfocado ao fundo, a comer tremoços.
Terceira regra: cuidado com os “contactados”. Sempre que se fala de extraterrestres, aparecem naves, discos voadores, testemunhos de abduções, luzes misteriosas, seres cinzentos, mesas frias, exames médicos inexplicáveis e memórias recuperadas em sessões de hipnose. E se os extraterrestres aparecessem mesmo, numa bela nave último modelo e descapotável?
Não convém gozar demasiado. Há sofrimento real em muitas dessas narrativas. Há medo, solidão, necessidade de sentido. Mas também convém não comprar tudo como quem compra batatas velhas e greladas na feira. Entre o cepticismo arrogante e a credulidade de alumínio na cabeça, há uma zona intermédia muito civilizada: ouvir, perguntar, investigar, duvidar, não chamar maluco à primeira, mas também não transformar cada luz no céu num primo distante do “E.T. phone home” fofinho do outro filme do Spielberg.
Aliás, Portugal tem uma vantagem competitiva no contacto alienígena: estamos habituados ao inexplicável. Um povo que sobreviveu a obras eternas, promessas eleitorais nunca cumpridas, assembleias de condomínio, centenas de chamadas das operadoras para venderem sempre alguma coisa, novos contratos de fidelização com um desconto de um euro na mensalidade e à frase “o sistema está em baixo” não se assusta facilmente com uma nave parada sobre as terras da Trafaria ou do Bico da Areia.
O extraterrestre até pode vir de Andrómeda, mas basta apanhar as correntes de ar e as mudanças de temperatura intergalácticas para tentar logo marcar uma consulta no centro de saúde e pedir médico de família, caso queira ficar por cá. Ao terceiro telefonema não atendido — ou atendido por uma gravação — pede imediatamente para voltar ao planeta dele.
Vocês tinham um planeta habitável e fizeram esta porcaria?
O problema maior será, sem dúvida, a comunicação emocional. O que dizer a uma inteligência vinda de outro mundo? “Bem-vindos à Terra”? É demasiado turístico. “Vimos em paz”? É pouco credível, tendo em conta o nosso currículo. “Desculpem o estado do planeta”? Talvez seja o mais honesto.
Imagino o primeiro encontro oficial: a criatura desce da nave, observa oceanos aquecidos, florestas queimadas, guerras em direto, lixo espacial, influencers a dançar diante de monumentos e políticos a sorrir com capacetes de obra. Depois olha para nós e pergunta, através de um tradutor universal: “Vocês tinham um planeta habitável e fizeram esta porcaria?” E nós, envergonhados, respondemos: “Foi uma fase.”
Talvez seja esse o verdadeiro terror de O Dia da Revelação: não descobrir que eles existem, mas perceber que eles nos vêem. Que alguém, algures, observou a humanidade e já tomou notas. E as notas não devem ser famosas: “Espécie promissora, mas instável. Grande talento para a música, cinema, poesia, culinária e destruição sistemática do próprio habitat. Obsessão incompreensível por fronteiras, celebridades, mercados financeiros e cadeiras gamer. Recomendamos contacto prudente, distância higiénica e quarentena moral.”
Mesmo assim, quero acreditar que o encontro com extraterrestres poderia correr bem. Talvez porque cresci, como tantos, com o olhar de Spielberg: aquele cinema em que o céu não é apenas ameaça, mas promessa; em que uma luz no horizonte ainda pode ser uma coisa maravilhosa, mesmo sem fumar um daqueles “cigarrinhos que fazem rir”; em que o desconhecido, ou o outro, não serve apenas para nos assustar, mas para nos devolver uma forma infantil, preciosa e quase perdida de espanto.
O mundo tornou-se tão cínico que até os extraterrestres já chegam atrasados. Antes, olhávamos para as estrelas e perguntávamos se havia alguém lá fora. Agora olhamos para o telemóvel e perguntamos se há rede. É uma queda civilizacional considerável. Por isso, em nome da sobrevivência da espécie, deixo aqui algumas recomendações práticas e úteis.
Se vir uma nave, não faça um direto para o Instagram antes de perceber se o raio azul é decorativo ou letal. Se encontrar um extraterrestre, não lhe pergunte logo se acredita em Deus, no Benfica campeão na próxima época com o Marco Silva como treinador ou numa valorização imobiliária ainda maior em Lisboa. Se ele emitir sons estranhos, não responda em inglês de aeroporto. Se ele estender um tentáculo, cumprimente com prudência e não faça imediatamente aquele gesto de quem vai lavar as mãos porque ficou com elas gordurosas. Se ele oferecer conhecimento ilimitado, aceite, mas leia primeiro os termos e condições, mesmo que venham em letras muito pequeninas. Se ele disser que vem em paz, ótimo, mas confirme se trouxe a declaração assinada. Se ele pedir para falar com o nosso líder ou patrão, faça um silêncio digno e mude de assunto. Ou diga simplesmente: “Pois.” E acabe por aí a conversa.
No fundo, preparar-nos para comunicar com extraterrestres talvez seja apenas preparar-nos para comunicar melhor primeiro uns com os outros, com os terráqueos. Escutar antes de disparar. Perguntar antes de concluir. Aceitar que o outro pode ser mesmo outro, e não apenas uma versão mal legendada de nós mesmos. Perceber que uma língua não é só vocabulário, mas mundo, corpo, memória, medo, desejo, humor e silêncio.
Talvez os extraterrestres não venham ensinar-nos novas tecnologias de teletransporte, nem salvar-nos, nem destruir-nos. Talvez venham apenas fazer a pergunta mais embaraçosa de todas: “Então, humanos, ou portugueses neste caso, já aprenderam a conversar e a dialogar em paz uns com os outros?” E aí, meus amigos, estaremos logo metidos em sarilhos. Porque com extraterrestres talvez ainda nos entendamos. Com humanos é que a coisa está cada vez mais difícil.