Os principais factores que caracterizam o nosso cenário político estão relacionados com o sistema político, não tanto com as pessoas. Este modelo está desenhado para partidos políticos, para campanhas eleitorais, que implicam promessas, eleições, e o governo do parlamento, com maioria, minoria ou coligações. A partir das eleições o governo do país e as decisões são entregues ao parlamento. O exercício do poder é feito de forma representativa pelo parlamento, eleito pelo povo que depois arruma as botas em matérias de decisões.
Parece-me óbvio que é melhor um governo quebrar promessas do que ficar caprichosamente refém das bem-intencionadas promessas eleitorais que tão bem resultaram em votos na cartola. Para os políticos esta dança de sedução resulta tão bem que as suas bases não têm qualquer interesse em mudar o sistema. Promete-se, as pessoas acreditam, vota-se, elege-se e depois faz-se o que for preciso, como é óbvio. Claro está que cada partido tem a sua ideologia, mas quanto a pormenores de governo, é como se costuma dizer: o trabalho é que manda.
Além disso, os cidadãos juntam-se à volta do conceito de democracia como quem se junta à volta de uma fogueira. Lutaram por ele, adoram o fogo, sentem-se mais quentes perto dele, mas pouco sabem acerca do fogo. Chegam até a pensar que o melhor era quando não havia fogo.
Adoramos a palavra democracia, contudo se nos pedirem para definir democracia confundimo-la com a palavra liberdade e pouco mais. A democracia para o povo português é uma coisa que foi conquistada, que se possui, que se defende, e que tem que se aguentar. Pensamos que é algo maravilhoso, mas depois na prática parece que há algo de sinistro que nos boicota a vida em sociedade, que não funciona. Não sabemos o que é. Apenas sabemos que temos democracia, que nos fartamos de trabalhar enquanto que outros se aproveitam, que temos uma ideia muito clara para as coisas, mas que elas teimam em não funcionar, presenteando-nos consecutivamente com uma combinação de ocorrências sempre imperfeitas, desajustadas, desequilibradas e com as quais pintamos a nossa vida de escuro.Basicamente, para nós o mundo falha por não ser como nós tanto gostaríamos. Talvez um dia nos ocorra que talvez pudéssemos ter desenvolvido uma melhor visão das coisas, por mais limitada que ela continuasse a ser, mas mais à altura das nossas sensações.Efectivamente, a democracia não é uma coisa concreta que se conquista e que põe em prática. É um modelo chamado de regime de governo e pode assumir formas mais simples, mais complexas e diferentes níveis. democracia é a tomada de decisões pelo povo. Quantas mais ele decidir, mais democracia há. A nossa democracia é uma democracia muito simples e de um nível muito básico, pois o povo em condições normais toma pouquíssimas decisões: 1 de 4 em 4 anos para o parlamento, 1 de 5 em 5 anos para a presidência da república e mais uma ou outra que surja por outros motivos. Comparativamente com o passado, temos mais liberdade e democracia, mas é uma democracia elementar, básica. Se não entendermos isto, não entendemos o que se passa. Não há nenhum problema de funcionamento do nosso sistema político actual: os resultados que temos tido são perfeitamente naturais. Se calhar queríamos era os resultados de outro modelo de democracia, mas para isso temos que mudar de modelo. Só que não sabemos.A democracia, para além de ser um regime caro é um regime que exige mais responsabilidade de cada cidadão. Por outro lado, a base de democracia nasce em cada pessoa e no seu nível de tolerância.Basicamente a responsabilidade e a tolerância são as coisas que mais nos dificultam a vida de português pois é aí que há mais défice popular. São duas coisas que se poderiam desenvolver gradualmente, mas para que isso acontecesse seria preciso sabermos disso e depois ter isso como propósito. mas, este assunto não faz parte do nosso saber, não é ensinado nas escolas, não é discutido na praça pública e basicamente não fazemos a mínima ideia dele.Mas continuamos a sentir que há algo de sinistro com a nossa condição de ser “português”. Interrogamo-nos se é genético, se é do clima, se é da língua, se é do mar, se é de termos os espanhóis nas costas, reviramos a cabeça, deprimimos com esta trágica sina que nos derrota, sem sabermos que a solução está em nós.