«Desgenerizar» as crianças? Esta neurocientista diz que sim

«Desgenerizar» as crianças? Esta neurocientista diz que sim

Afinal, o que distingue a cabeça dos homens e mulheres? No livro «Cérebro e Género – Para lá do mito do cérebro masculino e feminino» (Temas e Debates), que acaba de chegar às bancas, a neurocientista de renome internacional, Daphna Joel, explica que cada cérebro e cada ser humano são um mosaico único de características «masculinas» e «femininas». Ao longo de gerações, disseram-nos que as mulheres são profundamente diferentes dos homens. As mulheres são mais sensíveis e cooperantes, enquanto os homens são mais agressivos e sexuais – e tudo se deve aos respetivos cérebros. Esta história parece fornecer-nos uma explicação biológica clara para muito do que encontramos na vida quotidiana. Mas será realmente assim? Joel e a co-autora Luba Vikhanski, explicam que nem por isso…

Neste livro revela-nos os meandros da ciência do género – como funciona, a sua história e o seu futuro – e constitui uma investigação, que há muito se impunha, sobre os fundamentos errados de algumas crenças basilares.

Aqui fica um excerto do livro, intitulado «”Desgenerizar” os nossos filhos», sobre a educação sem género.

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Já algum tempo, o meu filho mais novo, então com cinco anos, chegou a casa depois de uma festa de aniversário todo coberto de papelinhos cor de rosa e anunciou que era um ninja cor de rosa. Passeou alegremente pela casa a atirar fitas de papel cor de rosa a inimigos imaginários, depois veio ter comigo e perguntou:

«Sabias que existem pessoas que acham que os rapazes não gostam de cor de rosa?» Eu disse que sabia (e poupei-lhe a resposta completa: que há cem anos, o cor de rosa era para as meninas e o azul para os meninos). Então, o meu filho afirmou: «Essas pessoas são estranhas, porque eu sou rapaz e gosto de cor de rosa.»

Nesse instante percebi que conseguira ajudar os meus filhos a perceber o absurdo das mensagens que recebiam da sociedade. O meu filho não achava que ele era estranho, sabia que os outros é que eram estranhos. De facto, como pode alguém dizer que os rapazes não gostam de cor de rosa, se existe pelo menos um que gosta?

Na verdade, as crianças sabem isto instintivamente, mesmo que a sociedade faça um grande esforço por levá-los a esquecer.

Uma vez, por exemplo, eu ia no carro com os meus filhos, todos muito pequenos, a ouvir uma canção na rádio na qual a cantora dizia algo sobre ser «mais mulher do que parecia». Para mim, aquela frase fez todo o sentido: bombardeados como somos por mensagens sobre o que é apropriado para homens e mulheres, não estaremos, muitos de nós, receosos de não ser suficientemente homens ou mulheres? Mas os meus filhos perguntaram-me: o que é que a cantora quer dizer? Como pode uma mulher ser mais ou menos mulher?

Ouço com frequência pais que tentam educar os filhos de um modo livre de género – por exemplo, comprando-lhes todos os tipos de brinquedos – dizerem que ficam desapontados porque, apesar de todos os seus esforços, os filhos conseguiram, não sabem muito bem como, apanhar estereótipos de género. Alguns pais concluem que isso significa que os estereótipos estão «naturalmente» impressos em nós desde o nascimento. Eu respondo-lhes que até pode ser verdade, mas o facto de os seus filhos surgirem do nada com estereótipos não pode servir de prova. Isso acontece, porque as crianças são mergulhadas em estereótipos de género para onde quer que vão. De facto, alguns estudos concluíram que o grau a que as crianças se submetem a normas de género é determinado muito mais pelos companheiros e pelos média do que pelos pais.

É por isso que não tento esconder os estereótipos de género dos meus filhos. Pelo contrário, uma boa estratégia é admitir a existência de estereótipos e expô-los como aquilo que são: convicções mal fundamentadas que por vezes assentam em provas, mas outras vezes não. Por exemplo, em Israel, o estereótipo de que as raparigas são péssimas no desporto assenta na observação verdadeira de que há mais rapazes do que raparigas a praticar desporto em todo o país, mas a observação não significa certamente que quem é rapariga não é bom em desporto. Por outro lado, o estereótipo de que as raparigas são péssimas a matemática não é suportado por qualquer tipo de prova: em Israel, as raparigas, em média, são pelo menos tão boas a matemática quanto os rapazes, na escola e nos exames internacionais.

Uma forma de expor uma ideia comum como estereótipo e não como verdade sobre o mundo é dar contraexemplos. Quando os meus filhos me disseram que as raparigas não sabem jogar futebol, lembrei-lhes que fui eu que os ensinei a jogar. Funcionou. Anos mais tarde, foram correr com outra família, mas a determinada altura, a filha dessa família parou de correr, explicando que era por ser rapariga. Para grande delícia minha, os meus filhos disseram que a sua explicação não fazia sentido, porque conhecem raparigas que correm.

Livro

Temos de dizer às crianças que o mundo ainda espera coisas  diferentes dos rapazes e das raparigas, e que algumas pessoas têm as vistas curtas. Caso contrário, poderão descobrir sozinhos, mas da pior maneira. Lembro-me da minha experiência dolorosa quando tinha cerca de 10 anos e decidi entrar para a equipa de natação. Cheguei lá vestida só com a parte de baixo do biquíni, como fazia na praia. Ainda não tinha peito e ir assim para a praia era perfeitamente aceitável, mas na equipa de natação não, facto do qual me apercebi pelos olhares espantados das raparigas e dos rapazes. Fiquei mortificada. Passei meses magoada com a minha mãe por não me ter falado das expectativas das outras pessoas, para que eu pudesse escolher se as deveria confrontar e quando. Ao ensinar os nossos filhos a detetar estereótipos, podemos ajudá-los a desenvolver um olhar crítico: a reconhecer mensagens que pretendem conduzi-los para determinado caminho e desviá-los daquilo que eles querem e precisam. Quando um lado de uma loja de brinquedos está pintado de cor de rosa e outro de azul, digo aos meus filhos como aquele sistema de cores, na verdade, limita as suas opções. Quando vemos um filme de ação juntos, ajudo-os a reparar se a maior parte das figuras ativas são homens – como é habitual – e se a maior parte que precisa de ser salva são mulheres.

Além de educarmos os nossos filhos, podemos tentar influenciar o ambiente que os rodeia. Quando o meu filho mais velho estava no segundo ano, soube que ele e os seus colegas de turma estudavam histórias da Bíblia, onde as figuras mais proeminentes são homens. Também andavam a ouvir histórias sobre tzadiks– pessoas consideradas justas no judaísmo –, que são todos homens, e a acompanhar uma leitura de A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia. Sugeri à professora que incluísse nas leituras histórias de heroínas femininas, o que ela fez de bom grado, mal a parcialidade lhe foi referida.

Julgo que muitas pessoas não têm consciência das suas ideias de género preconcebidas e estão mais abertas a mudar do que se possa pensar. Quando um dos meus filhos andava no jardim de infância, todos os pais receberam um e-mail a convidar as crianças para uma festa de aniversário conjunta de quatro miúdos nascidos naquele mês. O e-mail estava assinado pelas quatro mães. Eu usei a opção «responder a todos» para alertar toda a mailing list quanto à espantosa coincidência de todas as crianças que faziam anos naquele mês não terem pai. Um dos progenitores respondeu que, na verdade, o seu filho tinha pai. Mas desde esse e-mail, todos os convites passaram a ser assinados pelo pai e pela mãe, ou pela «família de».

Em geral, a nossa sociedade dá tanto valor à maternidade que os pais são frequentemente mantidos à margem dos cuidados com os filhos. Muitas vezes não são incluídos numa mailing list da escola para os pais; os professores costumam abordar a mãe, não o pai, se querem discutir alguma questão relacionada com a criança, e o mesmo fazem outros pais, por exemplo, quando querem combinar uma brincadeira conjunta. Essa abordagem cria um círculo vicioso de exclusão: deixa o pai desinformado, de tal modo que os outros sentem que é uma perda de tempo falar com ele sobre o filho, porque não estará a par de muitas coisas, de qualquer maneira; e o pai tem dificuldade em envolver-se sem fazer um esforço adicional para acompanhar a vida do filho. O pai dos meus filhos irrita-se com essa segregação pelo menos tanto quanto eu. Sente que subestima o seu importante papel enquanto pai e ressente-se de estar dependente de mim para saber o que se passa com os seus filhos. Ganhar reconhecimento como pai no local de trabalho também tem sido uma luta para ele. Teve de recusar ofertas de emprego em várias ocasiões, porque o seu pedido de sair mais cedo duas vezes por semana para cuidar dos filhos foi recusado, pedido esse que talvez fosse garantido de forma mais imediata a uma mulher na mesma posição.

Uma divisão tão rígida da paternidade em papéis de género acaba por prejudicar todas as partes envolvidas: homens, mulheres e crianças. Estudos mostram que o envolvimento do pai na vida do filho desempenha um papel importante no desenvolvimento cognitivo e na saúde emocional da criança. Um estudo de 2007 publicado na Applied Development Science concluiu, por exemplo, que os bebés que passam mais tempo sozinhos com os pais têm menos problemas de comportamento mais tarde, na infância1. Um estudo de 2015 publicado na lhe Scandinavian Journal of Economics concluiu que as crianças cujos pais tinham gozado de licença de paternidade eram melhores na escola anos mais tarde.

Outros estudos descobriram correlações entre gozar licenças de paternidade e menos problemas de saúde para a mãe e o pai, uma maior estabilidade na relação do casal e uma divisão mais igualitária das tarefas domésticas3. Na Islândia, por exemplo, onde os pais têm direito a uma licença de paternidade de três meses, uma investigação mostrou que, três anos mais tarde, o cuidado com as crianças era dividido de forma igualitária entre a mãe e o pai em 63% das famílias cujo pai gozara uma licença de paternidade, contra 41% das famílias em que só a mãe gozara de licença de maternidade.

Uma forma eficaz de garantir que os pais gozam do seu direito a uma licença de paternidade é uma política chamada «quota do pai», uma licença paga reservada aos pais, além da licença de maternidade paga. Nos países escandinavos, esta política levou a um enorme aumento da percentagem de pais que gozam a licença de paternidade, desde quase zero para 80% e 90%. Até uma curta licença de paternidade contribuiu para o envolvimento dos pais nos cuidados com os filhos e para diminuir a probabilidade de a criança desenvolver problemas mais tarde.

 

 

 

 

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